Sinais dos nossos tempos

Este artigo é baseado num comentário de Steven Poole sobre a obra “Isto não é um diário”,  de Zygmunt Bauman (tradução brasileira): “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo.”

Podia começar por dizer que Steven Poole não tinha dito o que disse, se conhecesse o meu blog. Claro que é apenas uma tentativa humorística estilo diácono remédios.

Acho que Zygmunt Bauman, um sociólogo com respeitosos 91 anos, com uma extensa experiência de vida profissional e académica, e mais de seis dezenas de livros publicados, se divulgasse os seus contributos diretamente num blog, teria com certeza muita receptividade por parte do público em geral, seria sem dúvida um dos melhores blogs da atualidade. Mas a sua qualidade exige que seja mais do que apenas ficar reduzido à blogosfera.

Entre o outono de 2010 e a primavera de 2011, escreve e regista as entradas com data, aborda uma série de questões comuns e essenciais, para perceber, captar os sinais de nossos tempos, o movimento ininterrupto como sociedade.

Faz inúmeras referências durante a sua exposição, gostei de perceber o carinho e a admiração que tem pelo nosso José Saramago, ao utilizar as suas expressões para explicar algo nas suas intervenções em púbico. A descrição do governo de Berlusconi é deliciosa e um bom exemplo do que referi, vai buscar o discurso, do nosso prémio nobel da literatura em 1998, para expor a sua posição.

Fala do click que houve na sociedade após o lançamento do livro Miguel de Cervantes, Don Quixote de la Mancha, obra que permitiu uma melhor resposta das pessoas às injustiças da vida, veio dar aquela força ao povo que faltava para se considerar imune e invencível, mesmo após saber de antemão que vai sair derrotado.

Este autor, volta a referir a incapacidade americana para lidar com a liderança mundial. Não aproveitando para usar smart power, criando imensos inimigos por onde quer que andem. Pela postura de imposição e não colaboração.

Outros dos assuntos abordados, a tecnologia e mais especificamente os smartphones, vieram intensificar as multitarefas, isso é muito bom e muito bonito, no entanto, com tanta velocidade e volume de conhecimento, a memória e a preservação cultural são um contra senso. Fica tudo muito mais supérfluo, redundante, muito menos vincado nas nossas vidas.

Faz referência que o sistema político está desfasado da realidade, os políticos, são muito incertos e têm um comportamento muito virado para o próprio umbigo. A democracia perdeu o seu fulgor, deixou de ajudar quem tem posição minoritária. Deixaram de ter respeito pela dignidade dessas pessoas e perderam essa franja da sociedade nas eleições. Perdemos a confiança no sistema que nos governa. Precisamos de uma autoridade confiável, em quem se possa acreditar.

Será o capitalismo incapaz de aprender? O ser humano, por si, constrói, arruma, é disciplinado, agente coletivo em relação aos grupos sociais de pertença, obedece ao dever. Então porque é que não se comportam todos de forma civilizada? Porque não acaba a selvajaria? Porque nos atrasamos em direção ao progresso? Porque vivemos num sistema que está dividido entre a política e a religião, os quais, dividem o eleitorado e visam conquistar, colonizar e anexar os membros da sociedade. Têm muitos argumentos, pois sabem funcionar em aliança, competição ou inimizade. Claro que estes ingredientes não permitem soluções benéficas para todos. Claro que, quando as prioridades são a de salvar os bancos e os acionistas, a corrida ao armamento ou manter a despesa militar, estamos à espera de quê? Que os que foram esquecidos batam palmas?

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Às vezes fala de coisas corriqueiras, da vida do dia-a-dia, assuntos que escapam à nossa atenção devido à sua banalidade. Do prazo de estabelecimento na nossa vida de certos assuntos, da dificuldade de prever o nosso futuro, de decidir com antecedência qual decisão tomar, ou escolher com sentido de responsabilidade e significado.

Alerta-nos para o que está ou pode estar acontecendo com as nossas vidas, formas de contacto, partilhas, perspectivas, o que nós percebemos e o relacionamento de todos nós com os outros. Refere que há  forças que moldam as nossas possibilidades na vida e definem os seus itinerários. Sublinha que numa terra onde há pessoas agressivas, é natural a maior desigualdade entre os seus cidadãos.

Continua com uma questão pertinente: Até que ponto é que precisamos do crescimento económico? Se o objetivo são os lucros e não o lazer, a saúde ou a educação, porquê esta necessidade estritamente económica? Se somos estimulados ou sistematicamente induzidos a comprar, tornámo-nos consumidores desenfreados, gastamos o que temos e o que não temos. É sempre em fuga para a frente, para acompanhar o progresso. Será que não há forma de o fazer sem ser o método materialista? Será que a nossa felicidade aumenta se o PIB do país crescer? Será mesmo necessário este vertiginoso caminho económico para o comum dos cidadãos?

Se calhar não, nem é o mais importante de tudo, mas com os atores atuais não vamos lá, só colocando justiça na nossa sociedade, tornarmo-nos vigilantes, mobilizados, em campanha permanente para inverter esta tendência.

Em relação aos discursos públicos, quem diz, importa mais do que aquilo que foi dito. Por isso é que ainda continuamos numa fuga para a frente, apesar de atingirmos valores impróprios de despesa e já termos em 20 anos acabado com o crédito que tínhamos para toda a vida. Com o despesismo e o sobreendividamento atual, que cara teremos perante os nossos filhos ou netos, cuja divida pública já está prolongada até à sua maturidade? Que bem é que andamos a fazer à nossa sociedade se não pensamos em conjunto e com perspectivas de futuro?

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Continuamos a explorar de forma desequilibrada os recursos do planeta, está difícil de sobressaírem dirigentes com novas ideias, criativas, inexploradas e com capacidade para pensar e fazê-lo numa modalidade diferente. Ter talento, perspicácia, espírito inventivo e ousadia ou aventura, mas sem colocar em causa a nossa casa (planeta terra) e o bem estar das gerações vindouras.

Acho que muitos dos problemas seriam solucionados se se acabasse com a “responsabilidade de ninguém”. Sim, ninguém é responsabilizado pelos erros que comete quando gere um país ou com funções de chefia nas organizações. O exemplo da tragédia de Entre-Os-Rios, onde morreram 59 pessoas e a culpa foi da própria estrutura da ponte, que não se regenerou sozinha sem intervenção humana em tempo útil. Ninguém foi chamado para responder, porque existiam informações mostrando a necessidade de intervenção de reparação e ninguém fez nada, causando a morte de 59 pessoas e desestruturando as suas famílias. Ninguém foi o culpado. Continuando com o fartar vilanagem, o banco BPN, que de um momento para o outro abriu um buraco de 6 mil milhões de euros e a solução foi nacionalizar e passar a dívida contraída por cidadãos individuais ou empresas para a sociedade portuguesa. Quem foi responsabilizado? Ninguém, e ainda continuamos a suportar outros desvarios (Banif, BES, CGD) de quem é remunerado para gerir e excerce as suas funções como se estivesse a fazer trabalhos manuais com os pés.

Neste momento, as distâncias geográficas já não contam, a localidade despiu-se de sua importância. Por isso, não há razão para que quem falhe seja responsabilizado e pague a sua incompetência ou má gestão. Seja quem for e onde quer que esteja a exercer.

Como disse no início, a Internet veio dar uma liberdade tal  que todos querem seus plenos direitos e viver a vida com dignidade. A Internet é um pilar da igualdade de oportunidades, apartidária (tem lá todas as opiniões). A propósito dos nossos tempos, Zygmunt Bauman, recorda-nos a passagem das 7 pragas do Egipto, fazendo uma analogia aos nossos tempos. Mostrando a tentativa de Deus, primeiro, ter mostrado pequenos milagres para demonstrar o seu poder, os quais, não foram assimilados pelo Faraó. Deus, só depois de verificar que ninguém lhe ligava nenhuma, partiu para o castigo (pragas), mas antes, tentou apenas mostrar o seu poder para ser respeitado pelo rei Egípcio. Nos nossos dias, os indicadores mostram, que faremos com a dívida dos nossos netos? Teremos coragem de os enfrentar daqui a uns anos e dizer que a divida contraída foi apenas por nós e eles ainda não tinham poder para decidir? Há sinais que mostram que estamos a delapidar o nosso património e recursos, tal qual, uma mensagem divina para nos fazer perceber que está na hora de dizer basta. Esperemos que não chegue ao momento das pragas, como aconteceu no Egipto.

A nossa sociedade hoje em dia tende mais para a rede do que para a comunidade, com toda a carga simbólica que daí pode advir, visto que, numa rede é pouco provável que se cumpram as normas. Numa comunidade é diferente, somos observados de perto, não temos espaço de manobra para desvios de comportamento.

A narrativa acaba a 11 de março de 2011, inspirado por um livro de 1910, de H.G. Wells: The Shape of Things to Come. Devemos preservar a autocritica, lutar apesar dos acontecimentos efémeros, acreditar sempre que há um caminho a seguir, não importa quantas dificuldades tem, será sempre esse o caminho que temos de percorrer. Só vamos poder descansar quando não haver um único cidadão no planeta sem auto-realização, saúde, influência e liberdade.

Acabo compreendendo que esta informação disponibilizada por Zygmunt Bauman é utilíssima, de qualidade e que estaria muito bem num blog acessível a todos. Concerteza que se Zygmunt Bauman tivesse postado estes textos, seria sem dúvida um dos melhores blogs do mundo.

Hoje, ninguém me impede de escrever e ser lido. O mesmo acontece para todos os que têm a capacidade e a destreza de produzir conteúdos e publicá-los. A Internet veio possibilitar uma nova e inesperada fonte de liberdade. Transmitir informação nunca foi tão fácil. Mas a qualidade, essa, é cada vez mais rara. Enquanto que, eu e outros temos algo a dizer, mas que até pode ser algo incompleto, imaturo ou inconsequente e desde logo dispensável, autores como Zygmunt Bauman são fundamentais para que o conhecimento se eleve, a discussão não se perca do seu foco essencial e a humanidade não disperse dos seus objectivos fundamentais. Bauman é imprescindível na web.

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