Para onde vamos nós a esta velocidade?

Sim, nesta sociedade desenfreada, com a exploração de recursos a superar o equilíbrio natural do planeta, com a nossa vida num registo cada vez mais incerto, impreciso e variável. Com o nosso habitat a sofrer desequilíbrios, para onde vamos e até quando?

Há muito tempo que os combates entre povos e civilizações fazem vítimas mortais, não se procuram debates saudáveis a nível científico ou ético. Após o fim do período da guerra fria, iniciámos outra fase na nossa civilização, ainda mais tumultuosa, desconcertante e eminentemente perigosa que as anteriores. Para este cenário, contribuiu muito os EUA terem permanecido como a única potência mundial, visto que a disrupção dos soviéticos vieram dar outro nível ao alcance da política americana. Basicamente, hoje em dia, não têm rival à altura.

No panorama atual, o eixo central do erro da superpotência, foi o de ter renunciado a respeitar os seus próprios valores, nas suas relações com os povos dominados.

Sim, porque é que os EUA depois da queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria, não conseguiram legitimar o seu poder efetivo sobre a população mundial? Porque é que o atentado do 11 de setembro aconteceu? Porque é que o islão parece condenado a implodir aos olhos do mundo desde então?

A criança deve saber fazer a diferença entre a mão adoptiva e uma madrasta. Os povos sabem fazer a diferença ente libertadores e ocupantes.

Porque não se dão ao respeito, não aceitam a universalidade, não compreendem que a humanidade é uma, diversa, mas una. Tentam impor a sua cultura de forma prepotente e unidirecional.

As atrocidades que têm vindo a ser feitas, nunca podem ser esquecidas ou prescritas, na memória dos povos, essa permissa não existe….os EUA e a Europa agiram muitas vezes em posição de força, agora estão a pagar o comportamento irresponsável.

O ocidente alienou sobretudo as elites modernistas, agarrou-se a métodos arcaicos e deixou prevalecer o facto de o sistema económico global ser cada vez menos controlável e a juntar a isso a perda de credibilidade moral dos dirigentes, dos Estados, das companhias multinacionais, das instituições e daqueles que deveriam vigiá-los. Nem deram sinal da menor preocupação com as repercussões dos seus atos nas empresas, nos trabalhadores, família ou bem-estar coletivo.

Apesar de nos últimos anos a estabilidade e pacifismo do governo dos EUA até foi dos melhores, não podemos esquecer de quem foi eleito recentemente e o que podemos esperar que a partir de agora. As eleições americanas, afetam não só os cidadãos norte americanos mas toda a população global. Neste contexto, 5% da população mundial (os eleitores dos EUA) vão decidir a vida dos habitantes do planeta.

Temos o exemplo de ações que humilharam o islão, como uma foto de uma guarda feminina dos EUA, numa prisão em Abu Gharaib, onde se mostrava o preso nu, com corda ao pescoço e trela, a imitar um cão, que pretende apoiá-lo nos quatro membros. O cão é considerado um animal impuro no islão. Quais foram as consequências desta atitude e outras atitudes semelhantes?

O estado deve assegurar o bem-estar dos cidadãos. Quando esse bem-estar não existe nos cidadãos, surge a ausência de legitimidade, quando se transmite uma imagem tão humilhante, é uma forma de força que desregula todos os comportamentos.

Atenção, o islão também não está isento de culpas, por exemplo, não têm uma autoridade eclesiástica forte e reconhecida como legítima, como a instituição papal católica, capaz de traçar a fronteira do político e do religioso. Não, eles também têm a sua quota-parte no estado atual das coisas. Mas efetivamente, o seu funcionamento é mais ad-hoc, mais consoante o sentimento do dia naquele núcleo ou o entendimento da situação (exemplos das caricaturas de Charlie Hebdo e do jornal dinamarquês  “Jyllands Posten“).

Do lado ocidental, temos o exemplo da retirada do véu na igreja. Foram XIX séculos com uma tradição que se alterou com a evolução das mentalidades, e a igreja conseguiu evoluir e recomendar que já não seria necessário o uso do véu no interior do local de culto. Evoluiu, adaptou-se, generalizou-se um novo procedimento. O islão já conseguiu fazer este tipo de adaptações, sobretudo nas décadas iniciais do século XX, mas de forma isolada, não geral. Desta forma, atualmente, após uma série de acontecimentos que lhes foram desfavoráveis, está mais difícil de conseguir, pelo contrário estão numa espiral destruidora. Porque não houve uma entidade que unisse e consolidasse essas alterações.

Não acompanham o avanço moral e material da civilização, existe entre eles uma tradição de desconfiança. Mas os americanos também têm a sua quota-parte de culpa, com aquelas religiões que anunciam e apressam o fim do mundo. Alguns discípulos desses movimentos, até se passeiam no pentágono e outras plataformas militares e alguns até ajudam a decidir as ações contra os outros povos/estados.

Em vez de espirito guerreiro deveria existir um estilo apartheid, no sentido do que foi preconizado por Nelson Mandela, o qual, após aqueles anos todos na prisão, teve a elevação moral para visitar a viúva do seu carrasco e dar-lhe as condolências. Deu um dos sinais mais poderosos que existem na civilização e com isso legitimou-o no poder. Colocou o fim à guerra, atuou pela paz.

Mas será que mais alguém age assim hoje em dia?

As ideologias passam e as religiões ficam. São a âncora de uma identidade duradoura. Para terem uma maior duração a política é que se estendeu ao domínio religioso. Com esta ação influênciou, influência e influenciará a marcha do mundo nas doutrinas. Prender homens e mulheres à sua comunidade religiosa, agrava os problemas em vez de os solucionar.

Para solucionar esta situação, deve-se reforçar a grande classe que está junto de outros povos, os imigrantes é que são a chave para fazer o esforço de unidade, pois cada vez há mais pessoas deslocadas do seu lugar cultural. Têm a visão dois mundos (origem e destino) e podem apoiar na compreensão mútua. Mas a luta vai ser dura, porque as identidades foram maltratadas durante muito tempo. É preciso tirar os árabes do exílio, não os deixar ir ao passado para ver a sua glória como povo. Ajudá-los no presente para o futuro.

Por outro lado, vemos que não há nenhum mal em enriquecer, nem em ter todos os prazeres da vida, por aqui tudo bem. Agora, o que não se pode é desligar o dinheiro da produção efetiva, de todo o esforço físico ou intelectual, de todas as atividades socialmente úteis. Não se pode permitir que as bolsas, transformem milhares de milhões de euros em brincadeiras, que resultam em definir sem consciência a vida de milhões de pessoas. Ricos sim, avarentos não.

Este problema ultrapassa as áreas das finanças ou a economia, tendo em conta o que se passa, o que pensarão todas as pessoas que observam as decisões em bolsa e sentem na pele o que alguém decidiu à distância, sem os considerar ou não os prejudicar?

Terão ainda vontade de levar uma vida de trabalho honesta? Profissionalmente, qual a vantagem de ser professor em vez de ser um malfeitor? Como neste sistema de coisas se podem transmitir os valores que implicam liberdade, democracia, felicidade, progresso ou civilização? Onde está o ambiente moral para transmitir conhecimentos e ideias, ou os apoios básicos que a humanidade necessita?

Só através da cultura e do conhecimento efetivo da especificidade dos povos. O conhecimento é um universo incomensurável, não se esgota. A cultura  de um povo é aquilo que ele consegue produzir e absorver. Este saber ajuda-nos a gerir a diversidade humana. Porque neste século, já não há estrangeiros, só há companheiros de viagem, visto que a distância geográfica entre as pessoas é só um pormenor, não uma dificuldade. Temos que dar lugar à cultura e ao ensino. Temos que estudar desde o berço até ao túmulo. Só assim conseguiremos acompanhar as alterações que irão ocorrer na civilização durante a nossa vida e estar atualizados e preparados para lidar com os problemas que vão surgir.

Podemos ser de qualquer cultura, sem deixar de ser nós, de ter uma pátria, uma ideologia, um idioma. Devemos ter um papel duplo, identidade cultural e agente da diversidade. Uma única civilização assenta na infinita diversidade, na aventura comum, onde nada é mais sagrado que o respeito pelo próximo, a preservação da integridade física e moral, o pensar e exprimir livremente além da preservação do planeta.

Vamos ver o que acontece. Perante a fábula do montanhista, onde a analogia é realizada em qual é a tentação do alpinista (humanidade)?  A queda no precipício? O imobilismo? Ou a tentação de atingir o cume? Qual será a nossa predisposição?

A tendência atual é a da queda, se continuarmos todos assim a este ritmo, adicionando a Chine e a India, vamos esgotar os recursos naturais, tornar o nosso planeta inabitável e depois logo se vê.

Também podemos optar pelo imobilismo, é vermos tudo pelo prisma de que só acontece aos outros, vamos ficar quietinhos que nada acontece, pode ser que as consequências de vivermos num mundo que não é só nosso e não fizemos nada para o alterar se componham, mas duvido muito. Há sempre outros a pensarem o mesmo e a estragarem esses planos “estáticos”.

A opção do cume é a mais difícil, mas neste caso tenta-se a superação e a elevação mental e moral. Esta escalada está associada ao progresso científico, à saída do subdesenvolvimento da Chine e India e a sua dimensão para equilíbrio de potências, proporcionando uma maior regressão nas investidas dos EUA perante os outros povos. Podemos adicionar a experiência da Europa contemporânea, com todo o seu legado cultural e humanista, não as versões extremistas ou sectárias. Outro dos aspetos é a ascensão de mais líderes como Barack Obama e tudo o que representam para a maioria da humanidade, figura de paz, carismática. Entretanto este cenário está alterado, vamos ver o que acontece com o seu sucessor. Espero que a sua candidatura tenha sido apenas marketing e agora caia na realidade e a sua figura no cenário mundial também venha a ser acarinhada.

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Devido à evolução que temos vindo a observar, chegámos a uma fase na humanidade em que já só há duas hipóteses: ou a desintegração ou a metamorfose, não há meio-termo.

Temos que conceber e instalar nos espíritos uma visão diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura da religião, da história. Sem ficar agarrados a preconceitos do passado que nos façam regredir.

E temos que parar com os desequilíbrios já. Vamos ver se conseguimos desacelerar para uma velocidade de segurança. Temos todas as condições para isso. Até meios de difusão à escala planetária. Falta-nos apenas a vontade.

Comentário ao excerto do livro, “Um mundo sem regras”, de Amin Maalouf (tradução portuguesa): “ O que teve o seu tempo e que deve hoje ser encerrado é a história tribal da humanidade, a história das lutas entre nações, entre Estados, entre comunidades étnicas ou religiosas e entre “civilizações”. O que termina diante dos nossos olhos é a pré-história dos homens. Sim, uma pré-história demasiado longa, feita de todas as nossas crispações identitárias, de todos os nossos etnocentrismos que não deixam ver, dos nossos considerados “sagrados”, quer sejam patrióticos, comunitários, culturais, ideológicos ou outros. (…) os únicos verdadeiros combates que merecem ser travados pela nossa espécie no decurso dos próximos séculos serão científicos e éticos (…)”.

 

 

 

 

 

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