Nobreza de espírito

Quando Thomas Mann, em 1937, na antecamara da 2.ª guerra mundial, ajudou a criar o jornal “Medida e Valor”, foi no sentido de dar voz a todos os alemães, sobretudo aos que estavam fora do ideal fascista. A propaganda estava a liderar as audiências nos media e os cidadãos eram manipulados. Para Mann, o homem é mais do que um ser físico, tem um lado espiritual, cognitivo que os distingue dos demais animais. Neste sentido, a vida deve ser vivida ativamente, colocando em questão todas as informações que recebemos, pois podem não trazer a verdade e dessa forma conjeturamos com uma base maleável e imprecisa.

A medida certa, é a comunicação da verdade, o absoluto tangível a todos, a liberdade e a justiça. Por seu lado, o valor é a parte ideal, o pensamento, o sonho, a lógica da visão comum da humanidade.

Foi com o objetivo de tentar dar argumentos válidos, virtuosos, que enveredou por publicar, para que as suas palavras e a mensagem que transportava fossem observadas como alternativa à lei vigente.  A linguagem é a característica que define a especificidade do ser humano, o próprio pensamento só pode ser estruturado devido à existência de um código que permite simular experiências e emoções através da linguagem. Permite-nos nomear e conhecer o mundo, partilhá-lo. Mesmo assuntos considerados abstratos podem ser desenvolvidos através do pensamento e da linguagem.

Quando a linguagem é utilizada por mentirosos, como no caso dos alemães na 2.ª guerra mundial, e outras réplicas duarnate outros períodos em outros países, a civilização entra numa espiral com pouco valor. O próprio significado das palavras pouco confiáveis, servem a alguém ou a algum grupo, mas não servem a verdade, e a unidade na humanidade.

Quando não somos verdadeiros, estamos a atrasar o nosso processo civilizacional, estamos a regredir, a agarrar algo antiquado, obsoleto e estamos a desobedecer ao próposito da nossa existência. Foi o que aconteceu na Alemanha do século XX e em muitos outros casos de cegueira politica por esse mundo fora.

Todas as manifestações de pobreza de espírito na Europa, tiveram origem na mentira, na manipulação e na defesa de interesses individuais. O fascismo, o nazismo, o comunismo, foram formas de selecionar opções baseadas em interesses puramente totalistas. Sacrificios de terceiros em nome de uma manipulação que se tenta esconder. Todas estas fações eram e são materialas, a elevação de espírito faltou aos governantes, que preferiram pela força, manipulação e interesses económicos passar a sua mensagem.

Quando a democracia não respeita o intelecto, nem as suas criações, a demogogia floresce e empobrece a vida dos cidadãos, deixando-os ignorantes e incultos. Atualmente, a informação que nos chega está mais do que inclinada, ou por lobbys, ou outros interesses de certos grupos.

Desde os tempos de Sócrates, que este tema é explorado, já nessa altura, a pessoa justa, verdadeira, a tal nobre de espírito, é desinteressada, não age pela recompensa ou reputação, atua de acordo com valores e principios que são mais importantes que tudo o resto. A felicidade está intimamente ligada a alguém justo e verdadeiro.

Para o filósofo grego todas as pessoas devem fazer aquilo para que têm mais habilidade, logo, a liderança do país deve estar entregue a alguém que se rege pela criação e manutenção das leis segundo a beleza, justiça e bondade, as virtudes do espírito. Não por políticos incultos que se servem do nosso erário.

Os séculos passaram e ao entrarmos em pleno século XX, após as fases do humanismo, renascimento, iluminismo e outros movimentos libertadores das várias fases que a nossa civilização passou, a que assistimos? À mais cruel das realidades, a guerras e conflitos que só desfizeram os valores da vida, perdeu-se a autoestima, houve sofrimento e o destino individual, minoritário é completamente ignorado pelos politicos e militares que governam as nações.

Para nos governar, têm que ser excecionais, não é qualquer um que serve, ainda por cima, quando nós hoje escrutinamos o partido e não o individuo. Para praticar as virtudes, deviam ser ajuízados a cada intervenção, avaliados e auditados. Só respondendo perante resultados podemos chegar à nobreza de espírito, porque esta atitude implica ação. Quem não cumpre, além de ter que procurar outra profissão, deveria regularizar a dívida pelo prejuízo causado.

O que começaram a fazer os oprimidos por este sistema económico autista em relação à humanidade e às suas vontades? Começaram a ripostar, atente-se no ataque do 11 de setembro, que significa simbólicamente uma resposta ao poderio económico (world trade center) e militar (pentágono) mundial.

Os ataques não visaram as 3000 pessoas que efetivamente morreram (paz à sua alma), mas sim, tudo aquilo que é significativo de quem tem governado os países capitalistas. Uma resposta de insatisfação, para quem tenta passar uma verdade e um valor que não são aceites.

Esta barbárie, violência, genocidio, não é nada mais nada menos que a consequência da postura de um páis que é uma potência económica, mas que tem outros valores fundamentais perto do ground zero (cultura, raízes de verdade, valor e nobreza de espírito). Ou seja, apregoam-se o expoente da civilização, mas não são.

Não pode haver civilização satifeita sem ter a noção desta dupla composição do ser humano. Além da satisfação material, o homem tem necessidade de saber a vedade, para contruir a sua realidade mais próxima do que realmente ela é, da bondade, para não temer e não se deixar levar por sentimentos pouco nobres, de beleza, para apreciar a criação. É necessário estar familiarizado com a liberdade, a justiça, o amor e a caridade.

A humanidade alcança a verdadeira identidade e dignidade, pelo que é, o aspeto fisico (carne e osso), mas também por aquilo que pensa que deveria ser (ideal).

Estes valores são intemporais, válidos para todos os tempo e todas as pessoas.

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Há um lado na sociedade que não é económico e que devia ter mais atenção por parte de quem governa, pois o prazer desinteressado das pessoas, conduze-as a criar algo de novo, bom e promove o avanço civilizacional, sem complicar com a vida de ninguém.

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Desta forma, reconhece-se que o ideal humano é aristocrático, não no sentido material, de ter obtido o titulo por herança, mas na constante procura de uma nobreza de espírito, da demanda de virturdes, a melhor ação possível.

Para atingir este estado é necessária integridade, que é a capacidade para assumirmos as nossas responsabilidades.

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O homem sozinho não pode criar os seus próprios valores, tem que ser algo consensual e aceite por todos. Nem vivemos sozinhos, não temos um planeta só para nós, temos que conviver saudavelmente, com elevação de espírito com todos os outros povos.

Uma coisa não é boa só porque estou habituado a ela, foi o que me disseram, é agradavel assim, gosto muito, ou serve os meus interesses. Uma coisa é realmente boa, quando serve o interesse de todos.

Quando o trabalho da palavra assenta em pressupostos de verdade, proporciona um maior discernimento a quem receciona a informação e pode alicerçar uma melhor escolha de vida.

Uma existência irrefletida não é só insensata, como também é má. Devemos procurar a justiça e outras virtudes todos os dias, porque é condição humana e a nossa sociedade está sempre a alterar, logo, a tal proximidade com a verdade muda todos os dias. A existência humana tem que ser ativa e não passiva.

A essência da verdadeira cultura é o desenvolvimento da alma humana e as palavras que proferimos só podem ter substância e significado se forem convertidas em ação.

A nobreza de espírito surge para nos elevar à nossa condição de humanos, deixando o lado animal do ser para segundo plano. O ideal em si está esquecido por parte de quem governa, de quem comecializa, mas faz parte da nossa competência coletiva não deixar de comunicar com virtude quando é possível ou necessário. Até porque a felicidade e a paz passam muito por proferir aquilo que pensamos.

Texto baseado na leitura do livro “Nobreza de espírito, um idela esquecido” de Rob Riemen, com prefácio de George Steiner.

 

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