Desmaterialização do conhecimento

Hoje, todos temos as nossas plataformas individuais de contacto com o mundo exterior, mas nem sempre foi assim, no inicio dos tempos, a sabedoria e o conhecimento estava nos individuos, quando alguém morria, levava consigo muito saber que não podia ser partilhado, o legado cientifico perecia com a pessoa.

Porque não havia método para deixar essa informação de forma permanente como base para as gerações vindouras. Não havia escrita ou outra forma de perpetuar o conhecimento adquirido.

Mais tarde, a Grécia antiga, dos primeiros povos a consolidar o conhecimento adquirido ao longo de uma vida de investigação e prática, ainda hoje são conhecidos: Platão, Sócrates, Aristóteles, Homero, Pitágoras, Euclides de Alexandria, e tantos outros.

Deixaram o seu legado por escrito, ainda hoje, há muitos conceitos que se aplicam em certas teorias, assim como muitos destes homens foram os fundadores no registo de muitas das ciências que estudamos hoje em dia e são a base da compreensão da nossa civilização, as matemáticas, a botânica, a medicina, filosofia, ciências sociais, arte e outras.

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Essa nova oportunidade criada pela acumulação de saber, levou a que o desenvolvimento das sociedades evoluissem mais rapidamente, já tinham uma base sobre a qual poderiam continuar a explorar a sabedoria acumulada. Já não partiam do zero em cada nascimento.

Ainda mais tarde, já no século XV, Guttenberg veio dar um impulso semelhante à concepção de sociedade, quando a mecânica veio dar uma ajuda no desenvolvimento da civilização. A produção de conteúdos até então era manual e limitada ao que o homem conseguia processar. A partir dessa invenção, a imprensa, o mundo começou a processar-se novamente de forma diferente, já não era simplesmente à velocidade do que o homem manualmente conseguia produzir, mas sim a uma velocidade proporcionada pela performance que as máquinas conseguiam atingir, com muito mais rapidez.

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Esta alteração no processo diário da civilização veio contribuir para outra alteração de fundo na vida das pessoas. Já nada foi como dantes, a partir daí veio a aplicação da máquina a outros campos de intervenção humana e entrámos no século XX já com o motor a combustivel consolidado em vários meios de transporte, por exemplo.

A vida das pessoas acelerou bastante ao longo do século XX, a ponto de sairmos de lá já com outro paradigma em questão, a desmaterialização do conhecimento adquirido. A democratização da distribuição da informação. A Internet.

Sim, tal qual o manuscrito na grécia antiga e a máquina da imprensa de Guttenberg vieram dar um novo “prisma” à sociedade, a Internet veio dar um passo ainda maior que os outros dois momentos. A Internet veio dar uma nova dimensão ao conhecimento, veio portabilizá-lo e torná-lo acessível a todos ao mesmo tempo, independentemente do lugar onde se encontrem.

Com a Internet, não é necessária a deslocação presencial para comunicar, assim como não é preciso uma posição fisica estática, mesmo estando a viajar estamos sempre ligados.

A Internet veio criar um novo sistema na sociedade, um novo posicionamento das várias peças que compõem o nosso comportamento social. A percepção de sociedade sofreu uma alteração drástica.

A geração que nasceu após a década de 80 do século passado, é completamente diferente da geração anterior em relação à concepção da “sua” sociedade. O multiculturalismo e a diversidade tomaram a sua posição de destaque na civilização, à medida que as novas tecnologias proporcionaram o acesso democrático a todo o tecido social.

O eixo da sociedade antes da Internet, era algo distinto, altivo, quase inalcansável. O centro do poder estava numa posição que parecia inatingivel. A percepção das pessoas que nos governavam era no sentido de que os subalternos eram ignorantes.

O poder e o conhecimento eram distribuidos num único local, dando destaque a um orador, administrador, gerente, supervisor ou outra posição de destaque ou eloqunte. O tratamento era na sua maioria diferenciado pela posição que ocupavam. Tudo se difundia a partir de um eixo central.

A Internet veio incluir o sistema de partilha, o conhecimento passou a estar acessível a todos e isso por si só, democratizou e consequentemente nivelou a nossa sociedade. Por outro lado, veio dar voz a cada um dos portadores da nova tecnologia de comunicação. Tornou a difusão do conhecimento acessível através de uma simples pesquisa num motor de busca online.

Hoje em dia, há o sentimento de que quem governa, chefia ou lidera está sempre a ser avaliado, escrutinado e constantemente posto em causa, tendo agora o rótulo de incompetente. Porque o saber passou para cada um dos portadores das plataformas e qualquer um contribui para a evolução social, o centro de difusão deixou de existir e a mensagem passou a ter multiplas origens.

O conhecimento democratizou-se e desmaterializou-se, mas o registo vai sendo acumulado em diversas plataformas e a sabedoria fica acessível a todos, sempre.

Para as Relações Públicas (RP), este novo paradigma comunicacional veio, em traços gerais, melhorar o panorama profissional.

O sistema de difusão está muito mais fácil, os meios disponíveis são cada vez melhores, mais complexos e eficazes, tudo o que diz respeito à trasmissão está a níveis nunca antes possíveis de realizar. Há plataformas capazes de consumar todas as nossas intenções de comunicar.

Ser Relações Públicas é mais viável que outra profissão relacionada (jornalismo, marketing, multimédia), a democratização da sociedade veio dar ênfase a uma posição multifacetada de um RP, em vez de uma menos polivalente, mais especializada.

O discurso que a sociedade exige de profissionais de RP é de transparência, realismo, responsabilidade social, partilha e defesa dos valores base da civilização.

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O público age em função dos seus interesses, cada um com a sua plataforma tecnológica, intervem quando, onde e no sentido que quiser.

O isolamento por um lado, cada um por si, poderá dar indicação de algum egoísmo, por outro lado, o poder de dar feedback, mesmo não conhecendo as pessoas envolvidas ou sabendo do que realmente se passou para poder opinar, é uma ferramenta que qualquer público desta nova geração não abdica.

É preciso ser muito transparente para conseguir ser aceite pelo público do início deste milénio. Um RP tem que ter ideias e decisões coerentes ao longo do tempo. Tem que ter humildade e aceitar as criticas que vai receber, pois toda a gente tem opinião e ferramentas que dão feedback. Deve aproveitar ao máximo o contributo livre e espontâneo para melhorar o comportamento profissional.

Se o RP souber cativar o público, mais depressa sobe na sua consideração, pela velocidade da partilha nas plataformas, se não agradar ao cidadão, pode muito bem ser prejudicado num ápice.

Os novos públicos têm o conhecimento e não é um RP descuidado com as regras atuais e em constante mudança que vai singrar.

Porque a geração que ainda detém o poder não é esta. Quem ainda está a tomar decisões e a manter o status quo social desadequado da realidade que temos, não compreende as necessidades de mudança tão bem como a geração milenium e posteriores.

O RP para ter sucesso, tem que se adaptar continuamente a estas alterações sociais provocadas pelas invenções tecnológicas. Tem que compreender e comunicar com esta nova geração de uma forma diferente que as anteriores. Tem que personalizar o seu discurso.

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É preciso ter muita atenção à força que transmitem, desde 2015 que são a geração que representa a maior percentagem de força de trabalho.

A definição de algumas qualidades em comparação com a geração anterior:

  • São mais narcisistas, empreendedores, independentes e diversificados;
  • São mais abertos e adaptam-se melhor à mudança;
  • São mais criativos;
  • Consomem de forma diferente, têm interesses e hábitos diferenciados;
  • Interessam-se de forma diferente pelos media;
  • Têm expetativas elevadas;
  • Mentalidade com forte sentido de direito e controlo.

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No entanto, por serem mais indivudualistas, têm um menor sentido de trabalho em equipa e consequentemente uma lealdade menor. Isto faz sentido, porque à velocidade que as situações de vida aceleraram, foram de tal maneira, que é mais dificl planear ou manter as coisas para toda a vida (emprego, casamento, casa, circulo de amigos para toda a vida, etc…).

Artigo inspirado na publicação de Michel Serres, a “Thumbelina” (pequena polegar).

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