Sinais dos nossos tempos

Este artigo é baseado num comentário de Steven Poole sobre a obra “Isto não é um diário”,  de Zygmunt Bauman (tradução brasileira): “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo.”

Podia começar por dizer que Steven Poole não tinha dito o que disse, se conhecesse o meu blog. Claro que é apenas uma tentativa humorística estilo diácono remédios.

Acho que Zygmunt Bauman, um sociólogo com respeitosos 91 anos, com uma extensa experiência de vida profissional e académica, e mais de seis dezenas de livros publicados, se divulgasse os seus contributos diretamente num blog, teria com certeza muita receptividade por parte do público em geral, seria sem dúvida um dos melhores blogs da atualidade. Mas a sua qualidade exige que seja mais do que apenas ficar reduzido à blogosfera.

Entre o outono de 2010 e a primavera de 2011, escreve e regista as entradas com data, aborda uma série de questões comuns e essenciais, para perceber, captar os sinais de nossos tempos, o movimento ininterrupto como sociedade.

Faz inúmeras referências durante a sua exposição, gostei de perceber o carinho e a admiração que tem pelo nosso José Saramago, ao utilizar as suas expressões para explicar algo nas suas intervenções em púbico. A descrição do governo de Berlusconi é deliciosa e um bom exemplo do que referi, vai buscar o discurso, do nosso prémio nobel da literatura em 1998, para expor a sua posição.

Fala do click que houve na sociedade após o lançamento do livro Miguel de Cervantes, Don Quixote de la Mancha, obra que permitiu uma melhor resposta das pessoas às injustiças da vida, veio dar aquela força ao povo que faltava para se considerar imune e invencível, mesmo após saber de antemão que vai sair derrotado.

Este autor, volta a referir a incapacidade americana para lidar com a liderança mundial. Não aproveitando para usar smart power, criando imensos inimigos por onde quer que andem. Pela postura de imposição e não colaboração.

Outros dos assuntos abordados, a tecnologia e mais especificamente os smartphones, vieram intensificar as multitarefas, isso é muito bom e muito bonito, no entanto, com tanta velocidade e volume de conhecimento, a memória e a preservação cultural são um contra senso. Fica tudo muito mais supérfluo, redundante, muito menos vincado nas nossas vidas.

Faz referência que o sistema político está desfasado da realidade, os políticos, são muito incertos e têm um comportamento muito virado para o próprio umbigo. A democracia perdeu o seu fulgor, deixou de ajudar quem tem posição minoritária. Deixaram de ter respeito pela dignidade dessas pessoas e perderam essa franja da sociedade nas eleições. Perdemos a confiança no sistema que nos governa. Precisamos de uma autoridade confiável, em quem se possa acreditar.

Será o capitalismo incapaz de aprender? O ser humano, por si, constrói, arruma, é disciplinado, agente coletivo em relação aos grupos sociais de pertença, obedece ao dever. Então porque é que não se comportam todos de forma civilizada? Porque não acaba a selvajaria? Porque nos atrasamos em direção ao progresso? Porque vivemos num sistema que está dividido entre a política e a religião, os quais, dividem o eleitorado e visam conquistar, colonizar e anexar os membros da sociedade. Têm muitos argumentos, pois sabem funcionar em aliança, competição ou inimizade. Claro que estes ingredientes não permitem soluções benéficas para todos. Claro que, quando as prioridades são a de salvar os bancos e os acionistas, a corrida ao armamento ou manter a despesa militar, estamos à espera de quê? Que os que foram esquecidos batam palmas?

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Às vezes fala de coisas corriqueiras, da vida do dia-a-dia, assuntos que escapam à nossa atenção devido à sua banalidade. Do prazo de estabelecimento na nossa vida de certos assuntos, da dificuldade de prever o nosso futuro, de decidir com antecedência qual decisão tomar, ou escolher com sentido de responsabilidade e significado.

Alerta-nos para o que está ou pode estar acontecendo com as nossas vidas, formas de contacto, partilhas, perspectivas, o que nós percebemos e o relacionamento de todos nós com os outros. Refere que há  forças que moldam as nossas possibilidades na vida e definem os seus itinerários. Sublinha que numa terra onde há pessoas agressivas, é natural a maior desigualdade entre os seus cidadãos.

Continua com uma questão pertinente: Até que ponto é que precisamos do crescimento económico? Se o objetivo são os lucros e não o lazer, a saúde ou a educação, porquê esta necessidade estritamente económica? Se somos estimulados ou sistematicamente induzidos a comprar, tornámo-nos consumidores desenfreados, gastamos o que temos e o que não temos. É sempre em fuga para a frente, para acompanhar o progresso. Será que não há forma de o fazer sem ser o método materialista? Será que a nossa felicidade aumenta se o PIB do país crescer? Será mesmo necessário este vertiginoso caminho económico para o comum dos cidadãos?

Se calhar não, nem é o mais importante de tudo, mas com os atores atuais não vamos lá, só colocando justiça na nossa sociedade, tornarmo-nos vigilantes, mobilizados, em campanha permanente para inverter esta tendência.

Em relação aos discursos públicos, quem diz, importa mais do que aquilo que foi dito. Por isso é que ainda continuamos numa fuga para a frente, apesar de atingirmos valores impróprios de despesa e já termos em 20 anos acabado com o crédito que tínhamos para toda a vida. Com o despesismo e o sobreendividamento atual, que cara teremos perante os nossos filhos ou netos, cuja divida pública já está prolongada até à sua maturidade? Que bem é que andamos a fazer à nossa sociedade se não pensamos em conjunto e com perspectivas de futuro?

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Continuamos a explorar de forma desequilibrada os recursos do planeta, está difícil de sobressaírem dirigentes com novas ideias, criativas, inexploradas e com capacidade para pensar e fazê-lo numa modalidade diferente. Ter talento, perspicácia, espírito inventivo e ousadia ou aventura, mas sem colocar em causa a nossa casa (planeta terra) e o bem estar das gerações vindouras.

Acho que muitos dos problemas seriam solucionados se se acabasse com a “responsabilidade de ninguém”. Sim, ninguém é responsabilizado pelos erros que comete quando gere um país ou com funções de chefia nas organizações. O exemplo da tragédia de Entre-Os-Rios, onde morreram 59 pessoas e a culpa foi da própria estrutura da ponte, que não se regenerou sozinha sem intervenção humana em tempo útil. Ninguém foi chamado para responder, porque existiam informações mostrando a necessidade de intervenção de reparação e ninguém fez nada, causando a morte de 59 pessoas e desestruturando as suas famílias. Ninguém foi o culpado. Continuando com o fartar vilanagem, o banco BPN, que de um momento para o outro abriu um buraco de 6 mil milhões de euros e a solução foi nacionalizar e passar a dívida contraída por cidadãos individuais ou empresas para a sociedade portuguesa. Quem foi responsabilizado? Ninguém, e ainda continuamos a suportar outros desvarios (Banif, BES, CGD) de quem é remunerado para gerir e excerce as suas funções como se estivesse a fazer trabalhos manuais com os pés.

Neste momento, as distâncias geográficas já não contam, a localidade despiu-se de sua importância. Por isso, não há razão para que quem falhe seja responsabilizado e pague a sua incompetência ou má gestão. Seja quem for e onde quer que esteja a exercer.

Como disse no início, a Internet veio dar uma liberdade tal  que todos querem seus plenos direitos e viver a vida com dignidade. A Internet é um pilar da igualdade de oportunidades, apartidária (tem lá todas as opiniões). A propósito dos nossos tempos, Zygmunt Bauman, recorda-nos a passagem das 7 pragas do Egipto, fazendo uma analogia aos nossos tempos. Mostrando a tentativa de Deus, primeiro, ter mostrado pequenos milagres para demonstrar o seu poder, os quais, não foram assimilados pelo Faraó. Deus, só depois de verificar que ninguém lhe ligava nenhuma, partiu para o castigo (pragas), mas antes, tentou apenas mostrar o seu poder para ser respeitado pelo rei Egípcio. Nos nossos dias, os indicadores mostram, que faremos com a dívida dos nossos netos? Teremos coragem de os enfrentar daqui a uns anos e dizer que a divida contraída foi apenas por nós e eles ainda não tinham poder para decidir? Há sinais que mostram que estamos a delapidar o nosso património e recursos, tal qual, uma mensagem divina para nos fazer perceber que está na hora de dizer basta. Esperemos que não chegue ao momento das pragas, como aconteceu no Egipto.

A nossa sociedade hoje em dia tende mais para a rede do que para a comunidade, com toda a carga simbólica que daí pode advir, visto que, numa rede é pouco provável que se cumpram as normas. Numa comunidade é diferente, somos observados de perto, não temos espaço de manobra para desvios de comportamento.

A narrativa acaba a 11 de março de 2011, inspirado por um livro de 1910, de H.G. Wells: The Shape of Things to Come. Devemos preservar a autocritica, lutar apesar dos acontecimentos efémeros, acreditar sempre que há um caminho a seguir, não importa quantas dificuldades tem, será sempre esse o caminho que temos de percorrer. Só vamos poder descansar quando não haver um único cidadão no planeta sem auto-realização, saúde, influência e liberdade.

Acabo compreendendo que esta informação disponibilizada por Zygmunt Bauman é utilíssima, de qualidade e que estaria muito bem num blog acessível a todos. Concerteza que se Zygmunt Bauman tivesse postado estes textos, seria sem dúvida um dos melhores blogs do mundo.

Hoje, ninguém me impede de escrever e ser lido. O mesmo acontece para todos os que têm a capacidade e a destreza de produzir conteúdos e publicá-los. A Internet veio possibilitar uma nova e inesperada fonte de liberdade. Transmitir informação nunca foi tão fácil. Mas a qualidade, essa, é cada vez mais rara. Enquanto que, eu e outros temos algo a dizer, mas que até pode ser algo incompleto, imaturo ou inconsequente e desde logo dispensável, autores como Zygmunt Bauman são fundamentais para que o conhecimento se eleve, a discussão não se perca do seu foco essencial e a humanidade não disperse dos seus objectivos fundamentais. Bauman é imprescindível na web.

Sim, comunicação personalizada

No início desta temporada publiquei um post, em forma de questão, que revelava uma vontade de mais tarde divulgar uma proposta sobre as alterações que devem ser realizadas nos postos de atendimento ao público por parte da Administração Pública, referindo desde esse momento, que o campo de ação fica restrito à análise do atendimento personalizado – a comunicação interpessoal.

A comunicação é um fator fundamental para resolver situações de interação humana, não são só as senhas e o posto, dizia eu nesse post, é verdade, nos serviços, a comunicação é tudo o que temos, podemos precisar ou não, mas sem comunicar, não chegamos a perceber o funcionamento de certos processos.

Não pretendo retroceder e dizer que acabaram-se os processos autónomos, ninguém passa pela entrada sem antes ser interrogado ou questionado: onde é que vai?; não pode entrar sem dizer o nome e serviço!; sem mostrar identificação não pode entrar!, ou outros casos semelhantes.

Cada um é livre de perguntar ou não, mas, a partir do momento que existe alguém com dúvidas ou a precisar de apoio, esse serviço, deveria ser mediado pessoalmente e monitorizado até à sua conclusão.

Agora que é possível poupar uma série de tempo nas tarefas burocráticas, devido à rapidez de registo eletrónico, podemos usar o tempo que sobra, para saber mais sobre quem precisa, para prevenir situações. Utilizando os registos informáticos para captar as dificuldades das pessoas. O objetivo é realizar um melhor serviço e se possível com menos custos.

Tem que ser tomada em consideração a opinião do cidadão? Sim. O cidadão tem que ter feedback? Sim. Com as ferramentas tecnológicas que dispomos, não podemos simplesmente continuar com a análise quantitativa: de quantos atendimentos foram, temos que ir além disso, fazer também a análise de variáveis nominais: se é melhor a solução A ou B? e ainda, a análise de variáveis ordinais: o nosso atendimento é superior, é igual ou é inferior na voz cidadãos?

Esta análise entre variáveis, tem que ser implementada, visto que, muitas das nossas falhas só se conseguem descobrir se investigarmos os cruzamento de informação obtida. Hoje a tecnologia permite descomplicar a desorganização humana.

O objetivo é tentar que todos os cidadãos sejam atendidos, mesmo que exista um excedente de clientes não previsto, extraordinário. O objetivo passa por ajudar a resolver os problemas de quem não sabe ou não consegue fazer sozinho o serviço que precisa. Esta coordenação é viável se forem tomadas iniciativas para descomplicar, com a companhia da tecnologia, mas também é necessária uma rede física de pessoas que ajudem no terreno.

Talvez seja ainda pouco o trabalho de investigação nesta área, ainda não se percebeu que a dificuldade do cidadão é um problema nosso. Continuam a existir processos que não servem o cidadão. E hoje, com o fluxo informatizado dos processos, ninguém se responsabiliza, não existe a figura do funcionário do estado responsável pelos processos que recebe. Os processos podem e devem ser informáticos, mas têm que ter algum humano responsável.

Não pode haver dúvidas onde nos devemos dirigir e o que temos que fazer, para solucionar questões pendentes. A Administração Pública tem que atingir qualidade no atendimento, tem que satisfazer quem a visita. Tem que ser explícita para que todos percebam e tem que ajudar quem necessita.

No futuro, o sistema deveria evoluir para o seguinte processo:

  1. Horário adaptável às necessidades de quem procura – o cidadão é o centro das atenções, o valor na comunicação interpessoal é diferente do mediado, se houver necessidade alargar o horário, que se faça, se for preciso vai-se a casa das pessoas.
  2. Senha de atendimento única – duas vias:
    1. Autónoma – O cidadão que não necessita de apoio, vai diretamente à máquina das senhas, dirige-se para o seu balcão e é atendido, no fi, vai-se embora.
    2. Interativa – A lógica deste processo é que o cidadão vai tratar dos seus processos, seja um serviço, sejam quinze, tira uma senha e vai ser atendido sequencialmente nos serviços que se inscreveu. Basta dirigir-se a um balcão multisserviços, que realizará todos os processos sem ir a mais lado nenhum. Neste caso, só no balcão de atendimento interativo é que se consegue esta senha de múltiplos serviços, a máquina automática continuará a dar uma senha por serviço. Esta medida obriga a um “arranjo estrutural” na AP, visto que a lógica de serviços atual não é rentável, nem tem capacidade para vertente multitask.
  3. Formação multidisciplinar a todos os colaboradores – A tecnologia consegue emparelhar serviços de natureza e complexidade diferente, já não se justifica que o trabalhador realize serviços exclusivos de um ministério ou organismo, o futuro passa por ter serviços de várias entidades a serem operadas por um único colaborador, supraministerial ou extraministério, mas antes, funcionário para toda a administração pública.
  4. Coordenação em front-office – Existe a necessidade de a coordenação da loja estar presente fisicamente no front-office, visível durante todo o período de atendimento, para manter as decisões rápidas, reservando um espaço mais privado para algumas reuniões com cidadãos .
  5. Decisões imediatas – Em caso de dúvida da decisão a tomar, ter sempre alguém contactável a quem recorrer para resolver os problemas imediatamente. Quando se trata de decisões imediatas e negativas, o cidadão deverá ter sempre um funcionário/interlocutor identificado no estado, para o ajudar enquanto não conseguir realizar o serviço pretendido.
  6. Respostas personalizadas embora com determinados padrões – Considerar cada caso, uma situação diferente. No entanto, há padrões de ação, certos procedimentos estão pré-estabelecidos, certos limites estão balizados.
  7. Superiores hierárquicos em colaboração com técnicos que realizam o processo – Os superiores hierárquicos devem ser os primeiros interessados em resolver os problemas, do serviço, é claro, mas também dos seus subordinados, devem escutá-los, ouvi-los e de vez em quando recompensá-los se houver razão para isso. Mas, o principal é a colaboração entre ambos, trabalho em equipa.
  8. Disponibilizar online todos os procedimentos e ter também as suas consequências  ou limitações em caso de incumprimento – Ter tutoriais, informações passo a passo, vídeo, solução de problemas, horário, meios de contacto, legislação, outras informações relacionadas. Tudo à distância de uns cliks e acessível através da web.
  9. Tornar os fluxos mais simples, mais claros, mais desmaterializados – É o objetivo de simplificar através da comunicação e da reengenharia de processos, tornar os assuntos mais perceptíveis ao comum dos mortais e não apenas familiar aos do circuito interno da administração pública. Linguagem comum. Procurar comunicar o mais simples e direto possível, perdendo tempo inicialmente, mas se for claro, irá poupar incontáveis atendimentos no futuro.
  10. Ter sempre um contacto direto – Este, para mim, é o processo fundamental, pois o sucesso de ambas as partes depende muito deste contacto direto. Hoje em dia quem necessita de contacto personalizado antes de ser atendido, revela uma dificuldade. Essa dificuldade pode ser ultrapassada. Após resolução, o cidadão deveria ter a possibilidade de manter esse contacto, para outras dúvidas ou questões no futuro. As pessoas não são todas iguais e é normal que o info-excluído não desapareça totalmente. O processo deverá passar pelo ensino, explicando, dando instruções com o objetivo de um dia mais tarde, essa pessoa se tornar autónoma. Se assim for, provavelmente, irão inclusive conseguir ajudar-nos a realizar o nosso trabalho, apoiando outros. As pessoas passarão menos tempo no local de atendimento, irão aos serviços presenciais menos vezes, e isso, a longo prazo será benéfico para ambos, cidadão e organismo.

A proposta que melhora esta situação não é transcendental, nem há grandes divergências, nem passos adicionais entre o cidadão que consegue realizar serviços sem ajuda de ninguém e o que precisa de apoio.

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A intenção de abordar o atendimento personalizado – comunicação interpessoal, é apenas de aproximar o conhecimento das pessoas dos assuntos que têm que tratar.

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Além do ponto fixo e proativo na entrada das lojas de serviços, um apoio verdadeiro ao cidadão desde a sua chegada até à conclusão do serviço. Dever-se-ia começar a formar funcionários para a complexidade, não pertencendo a este ou aquele organismo, mas sendo pagos por todos e estando à disposição das necessidades efetivas do serviço. Outra das inovações, é a nivelação das relações, existir uma maior proximidade entre quem atende, quem coordena e quem dirige o serviço e quem o frequenta.

Já existe um balcão que realiza mais que um serviço, agora é só desenvolver este meio e vamos neste sentido comunicacional, multicontextual, completo, mas com fluidez.

A tecnologia trouxe muitas coisas, mas essas mesmas coisas que acontecem através da tecnologia são realizadas por humanos, às vezes não há mecanismo que resolva. Quando é necessário o contacto pessoal, a administração pública deveria dar uma imagem de qualidade, não dando o assunto por fechado, só porque houve qualquer coisa que impediu o serviço naquele momento. Tem que existir responsabilidade humana e social do estado para não deixar ninguém pra trás, sem cumprir com os seus deveres. Porque na administração pública há serviços obrigatórios (Querem viajar para fora do país? Passaporte se faz favor). Temos que ajudar os nossos clientes obrigatórios.

Para onde vamos nós a esta velocidade?

Sim, nesta sociedade desenfreada, com a exploração de recursos a superar o equilíbrio natural do planeta, com a nossa vida num registo cada vez mais incerto, impreciso e variável. Com o nosso habitat a sofrer desequilíbrios, para onde vamos e até quando?

Há muito tempo que os combates entre povos e civilizações fazem vítimas mortais, não se procuram debates saudáveis a nível científico ou ético. Após o fim do período da guerra fria, iniciámos outra fase na nossa civilização, ainda mais tumultuosa, desconcertante e eminentemente perigosa que as anteriores. Para este cenário, contribuiu muito os EUA terem permanecido como a única potência mundial, visto que a disrupção dos soviéticos vieram dar outro nível ao alcance da política americana. Basicamente, hoje em dia, não têm rival à altura.

No panorama atual, o eixo central do erro da superpotência, foi o de ter renunciado a respeitar os seus próprios valores, nas suas relações com os povos dominados.

Sim, porque é que os EUA depois da queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria, não conseguiram legitimar o seu poder efetivo sobre a população mundial? Porque é que o atentado do 11 de setembro aconteceu? Porque é que o islão parece condenado a implodir aos olhos do mundo desde então?

A criança deve saber fazer a diferença entre a mão adoptiva e uma madrasta. Os povos sabem fazer a diferença ente libertadores e ocupantes.

Porque não se dão ao respeito, não aceitam a universalidade, não compreendem que a humanidade é uma, diversa, mas una. Tentam impor a sua cultura de forma prepotente e unidirecional.

As atrocidades que têm vindo a ser feitas, nunca podem ser esquecidas ou prescritas, na memória dos povos, essa permissa não existe….os EUA e a Europa agiram muitas vezes em posição de força, agora estão a pagar o comportamento irresponsável.

O ocidente alienou sobretudo as elites modernistas, agarrou-se a métodos arcaicos e deixou prevalecer o facto de o sistema económico global ser cada vez menos controlável e a juntar a isso a perda de credibilidade moral dos dirigentes, dos Estados, das companhias multinacionais, das instituições e daqueles que deveriam vigiá-los. Nem deram sinal da menor preocupação com as repercussões dos seus atos nas empresas, nos trabalhadores, família ou bem-estar coletivo.

Apesar de nos últimos anos a estabilidade e pacifismo do governo dos EUA até foi dos melhores, não podemos esquecer de quem foi eleito recentemente e o que podemos esperar que a partir de agora. As eleições americanas, afetam não só os cidadãos norte americanos mas toda a população global. Neste contexto, 5% da população mundial (os eleitores dos EUA) vão decidir a vida dos habitantes do planeta.

Temos o exemplo de ações que humilharam o islão, como uma foto de uma guarda feminina dos EUA, numa prisão em Abu Gharaib, onde se mostrava o preso nu, com corda ao pescoço e trela, a imitar um cão, que pretende apoiá-lo nos quatro membros. O cão é considerado um animal impuro no islão. Quais foram as consequências desta atitude e outras atitudes semelhantes?

O estado deve assegurar o bem-estar dos cidadãos. Quando esse bem-estar não existe nos cidadãos, surge a ausência de legitimidade, quando se transmite uma imagem tão humilhante, é uma forma de força que desregula todos os comportamentos.

Atenção, o islão também não está isento de culpas, por exemplo, não têm uma autoridade eclesiástica forte e reconhecida como legítima, como a instituição papal católica, capaz de traçar a fronteira do político e do religioso. Não, eles também têm a sua quota-parte no estado atual das coisas. Mas efetivamente, o seu funcionamento é mais ad-hoc, mais consoante o sentimento do dia naquele núcleo ou o entendimento da situação (exemplos das caricaturas de Charlie Hebdo e do jornal dinamarquês  “Jyllands Posten“).

Do lado ocidental, temos o exemplo da retirada do véu na igreja. Foram XIX séculos com uma tradição que se alterou com a evolução das mentalidades, e a igreja conseguiu evoluir e recomendar que já não seria necessário o uso do véu no interior do local de culto. Evoluiu, adaptou-se, generalizou-se um novo procedimento. O islão já conseguiu fazer este tipo de adaptações, sobretudo nas décadas iniciais do século XX, mas de forma isolada, não geral. Desta forma, atualmente, após uma série de acontecimentos que lhes foram desfavoráveis, está mais difícil de conseguir, pelo contrário estão numa espiral destruidora. Porque não houve uma entidade que unisse e consolidasse essas alterações.

Não acompanham o avanço moral e material da civilização, existe entre eles uma tradição de desconfiança. Mas os americanos também têm a sua quota-parte de culpa, com aquelas religiões que anunciam e apressam o fim do mundo. Alguns discípulos desses movimentos, até se passeiam no pentágono e outras plataformas militares e alguns até ajudam a decidir as ações contra os outros povos/estados.

Em vez de espirito guerreiro deveria existir um estilo apartheid, no sentido do que foi preconizado por Nelson Mandela, o qual, após aqueles anos todos na prisão, teve a elevação moral para visitar a viúva do seu carrasco e dar-lhe as condolências. Deu um dos sinais mais poderosos que existem na civilização e com isso legitimou-o no poder. Colocou o fim à guerra, atuou pela paz.

Mas será que mais alguém age assim hoje em dia?

As ideologias passam e as religiões ficam. São a âncora de uma identidade duradoura. Para terem uma maior duração a política é que se estendeu ao domínio religioso. Com esta ação influênciou, influência e influenciará a marcha do mundo nas doutrinas. Prender homens e mulheres à sua comunidade religiosa, agrava os problemas em vez de os solucionar.

Para solucionar esta situação, deve-se reforçar a grande classe que está junto de outros povos, os imigrantes é que são a chave para fazer o esforço de unidade, pois cada vez há mais pessoas deslocadas do seu lugar cultural. Têm a visão dois mundos (origem e destino) e podem apoiar na compreensão mútua. Mas a luta vai ser dura, porque as identidades foram maltratadas durante muito tempo. É preciso tirar os árabes do exílio, não os deixar ir ao passado para ver a sua glória como povo. Ajudá-los no presente para o futuro.

Por outro lado, vemos que não há nenhum mal em enriquecer, nem em ter todos os prazeres da vida, por aqui tudo bem. Agora, o que não se pode é desligar o dinheiro da produção efetiva, de todo o esforço físico ou intelectual, de todas as atividades socialmente úteis. Não se pode permitir que as bolsas, transformem milhares de milhões de euros em brincadeiras, que resultam em definir sem consciência a vida de milhões de pessoas. Ricos sim, avarentos não.

Este problema ultrapassa as áreas das finanças ou a economia, tendo em conta o que se passa, o que pensarão todas as pessoas que observam as decisões em bolsa e sentem na pele o que alguém decidiu à distância, sem os considerar ou não os prejudicar?

Terão ainda vontade de levar uma vida de trabalho honesta? Profissionalmente, qual a vantagem de ser professor em vez de ser um malfeitor? Como neste sistema de coisas se podem transmitir os valores que implicam liberdade, democracia, felicidade, progresso ou civilização? Onde está o ambiente moral para transmitir conhecimentos e ideias, ou os apoios básicos que a humanidade necessita?

Só através da cultura e do conhecimento efetivo da especificidade dos povos. O conhecimento é um universo incomensurável, não se esgota. A cultura  de um povo é aquilo que ele consegue produzir e absorver. Este saber ajuda-nos a gerir a diversidade humana. Porque neste século, já não há estrangeiros, só há companheiros de viagem, visto que a distância geográfica entre as pessoas é só um pormenor, não uma dificuldade. Temos que dar lugar à cultura e ao ensino. Temos que estudar desde o berço até ao túmulo. Só assim conseguiremos acompanhar as alterações que irão ocorrer na civilização durante a nossa vida e estar atualizados e preparados para lidar com os problemas que vão surgir.

Podemos ser de qualquer cultura, sem deixar de ser nós, de ter uma pátria, uma ideologia, um idioma. Devemos ter um papel duplo, identidade cultural e agente da diversidade. Uma única civilização assenta na infinita diversidade, na aventura comum, onde nada é mais sagrado que o respeito pelo próximo, a preservação da integridade física e moral, o pensar e exprimir livremente além da preservação do planeta.

Vamos ver o que acontece. Perante a fábula do montanhista, onde a analogia é realizada em qual é a tentação do alpinista (humanidade)?  A queda no precipício? O imobilismo? Ou a tentação de atingir o cume? Qual será a nossa predisposição?

A tendência atual é a da queda, se continuarmos todos assim a este ritmo, adicionando a Chine e a India, vamos esgotar os recursos naturais, tornar o nosso planeta inabitável e depois logo se vê.

Também podemos optar pelo imobilismo, é vermos tudo pelo prisma de que só acontece aos outros, vamos ficar quietinhos que nada acontece, pode ser que as consequências de vivermos num mundo que não é só nosso e não fizemos nada para o alterar se componham, mas duvido muito. Há sempre outros a pensarem o mesmo e a estragarem esses planos “estáticos”.

A opção do cume é a mais difícil, mas neste caso tenta-se a superação e a elevação mental e moral. Esta escalada está associada ao progresso científico, à saída do subdesenvolvimento da Chine e India e a sua dimensão para equilíbrio de potências, proporcionando uma maior regressão nas investidas dos EUA perante os outros povos. Podemos adicionar a experiência da Europa contemporânea, com todo o seu legado cultural e humanista, não as versões extremistas ou sectárias. Outro dos aspetos é a ascensão de mais líderes como Barack Obama e tudo o que representam para a maioria da humanidade, figura de paz, carismática. Entretanto este cenário está alterado, vamos ver o que acontece com o seu sucessor. Espero que a sua candidatura tenha sido apenas marketing e agora caia na realidade e a sua figura no cenário mundial também venha a ser acarinhada.

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Devido à evolução que temos vindo a observar, chegámos a uma fase na humanidade em que já só há duas hipóteses: ou a desintegração ou a metamorfose, não há meio-termo.

Temos que conceber e instalar nos espíritos uma visão diferente da política, da economia, do trabalho, do consumo, da ciência, da tecnologia, do progresso, da identidade, da cultura da religião, da história. Sem ficar agarrados a preconceitos do passado que nos façam regredir.

E temos que parar com os desequilíbrios já. Vamos ver se conseguimos desacelerar para uma velocidade de segurança. Temos todas as condições para isso. Até meios de difusão à escala planetária. Falta-nos apenas a vontade.

Comentário ao excerto do livro, “Um mundo sem regras”, de Amin Maalouf (tradução portuguesa): “ O que teve o seu tempo e que deve hoje ser encerrado é a história tribal da humanidade, a história das lutas entre nações, entre Estados, entre comunidades étnicas ou religiosas e entre “civilizações”. O que termina diante dos nossos olhos é a pré-história dos homens. Sim, uma pré-história demasiado longa, feita de todas as nossas crispações identitárias, de todos os nossos etnocentrismos que não deixam ver, dos nossos considerados “sagrados”, quer sejam patrióticos, comunitários, culturais, ideológicos ou outros. (…) os únicos verdadeiros combates que merecem ser travados pela nossa espécie no decurso dos próximos séculos serão científicos e éticos (…)”.

 

 

 

 

 

Nobreza de espírito

Quando Thomas Mann, em 1937, na antecamara da 2.ª guerra mundial, ajudou a criar o jornal “Medida e Valor”, foi no sentido de dar voz a todos os alemães, sobretudo aos que estavam fora do ideal fascista. A propaganda estava a liderar as audiências nos media e os cidadãos eram manipulados. Para Mann, o homem é mais do que um ser físico, tem um lado espiritual, cognitivo que os distingue dos demais animais. Neste sentido, a vida deve ser vivida ativamente, colocando em questão todas as informações que recebemos, pois podem não trazer a verdade e dessa forma conjeturamos com uma base maleável e imprecisa.

A medida certa, é a comunicação da verdade, o absoluto tangível a todos, a liberdade e a justiça. Por seu lado, o valor é a parte ideal, o pensamento, o sonho, a lógica da visão comum da humanidade.

Foi com o objetivo de tentar dar argumentos válidos, virtuosos, que enveredou por publicar, para que as suas palavras e a mensagem que transportava fossem observadas como alternativa à lei vigente.  A linguagem é a característica que define a especificidade do ser humano, o próprio pensamento só pode ser estruturado devido à existência de um código que permite simular experiências e emoções através da linguagem. Permite-nos nomear e conhecer o mundo, partilhá-lo. Mesmo assuntos considerados abstratos podem ser desenvolvidos através do pensamento e da linguagem.

Quando a linguagem é utilizada por mentirosos, como no caso dos alemães na 2.ª guerra mundial, e outras réplicas duarnate outros períodos em outros países, a civilização entra numa espiral com pouco valor. O próprio significado das palavras pouco confiáveis, servem a alguém ou a algum grupo, mas não servem a verdade, e a unidade na humanidade.

Quando não somos verdadeiros, estamos a atrasar o nosso processo civilizacional, estamos a regredir, a agarrar algo antiquado, obsoleto e estamos a desobedecer ao próposito da nossa existência. Foi o que aconteceu na Alemanha do século XX e em muitos outros casos de cegueira politica por esse mundo fora.

Todas as manifestações de pobreza de espírito na Europa, tiveram origem na mentira, na manipulação e na defesa de interesses individuais. O fascismo, o nazismo, o comunismo, foram formas de selecionar opções baseadas em interesses puramente totalistas. Sacrificios de terceiros em nome de uma manipulação que se tenta esconder. Todas estas fações eram e são materialas, a elevação de espírito faltou aos governantes, que preferiram pela força, manipulação e interesses económicos passar a sua mensagem.

Quando a democracia não respeita o intelecto, nem as suas criações, a demogogia floresce e empobrece a vida dos cidadãos, deixando-os ignorantes e incultos. Atualmente, a informação que nos chega está mais do que inclinada, ou por lobbys, ou outros interesses de certos grupos.

Desde os tempos de Sócrates, que este tema é explorado, já nessa altura, a pessoa justa, verdadeira, a tal nobre de espírito, é desinteressada, não age pela recompensa ou reputação, atua de acordo com valores e principios que são mais importantes que tudo o resto. A felicidade está intimamente ligada a alguém justo e verdadeiro.

Para o filósofo grego todas as pessoas devem fazer aquilo para que têm mais habilidade, logo, a liderança do país deve estar entregue a alguém que se rege pela criação e manutenção das leis segundo a beleza, justiça e bondade, as virtudes do espírito. Não por políticos incultos que se servem do nosso erário.

Os séculos passaram e ao entrarmos em pleno século XX, após as fases do humanismo, renascimento, iluminismo e outros movimentos libertadores das várias fases que a nossa civilização passou, a que assistimos? À mais cruel das realidades, a guerras e conflitos que só desfizeram os valores da vida, perdeu-se a autoestima, houve sofrimento e o destino individual, minoritário é completamente ignorado pelos politicos e militares que governam as nações.

Para nos governar, têm que ser excecionais, não é qualquer um que serve, ainda por cima, quando nós hoje escrutinamos o partido e não o individuo. Para praticar as virtudes, deviam ser ajuízados a cada intervenção, avaliados e auditados. Só respondendo perante resultados podemos chegar à nobreza de espírito, porque esta atitude implica ação. Quem não cumpre, além de ter que procurar outra profissão, deveria regularizar a dívida pelo prejuízo causado.

O que começaram a fazer os oprimidos por este sistema económico autista em relação à humanidade e às suas vontades? Começaram a ripostar, atente-se no ataque do 11 de setembro, que significa simbólicamente uma resposta ao poderio económico (world trade center) e militar (pentágono) mundial.

Os ataques não visaram as 3000 pessoas que efetivamente morreram (paz à sua alma), mas sim, tudo aquilo que é significativo de quem tem governado os países capitalistas. Uma resposta de insatisfação, para quem tenta passar uma verdade e um valor que não são aceites.

Esta barbárie, violência, genocidio, não é nada mais nada menos que a consequência da postura de um páis que é uma potência económica, mas que tem outros valores fundamentais perto do ground zero (cultura, raízes de verdade, valor e nobreza de espírito). Ou seja, apregoam-se o expoente da civilização, mas não são.

Não pode haver civilização satifeita sem ter a noção desta dupla composição do ser humano. Além da satisfação material, o homem tem necessidade de saber a vedade, para contruir a sua realidade mais próxima do que realmente ela é, da bondade, para não temer e não se deixar levar por sentimentos pouco nobres, de beleza, para apreciar a criação. É necessário estar familiarizado com a liberdade, a justiça, o amor e a caridade.

A humanidade alcança a verdadeira identidade e dignidade, pelo que é, o aspeto fisico (carne e osso), mas também por aquilo que pensa que deveria ser (ideal).

Estes valores são intemporais, válidos para todos os tempo e todas as pessoas.

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Há um lado na sociedade que não é económico e que devia ter mais atenção por parte de quem governa, pois o prazer desinteressado das pessoas, conduze-as a criar algo de novo, bom e promove o avanço civilizacional, sem complicar com a vida de ninguém.

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Desta forma, reconhece-se que o ideal humano é aristocrático, não no sentido material, de ter obtido o titulo por herança, mas na constante procura de uma nobreza de espírito, da demanda de virturdes, a melhor ação possível.

Para atingir este estado é necessária integridade, que é a capacidade para assumirmos as nossas responsabilidades.

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O homem sozinho não pode criar os seus próprios valores, tem que ser algo consensual e aceite por todos. Nem vivemos sozinhos, não temos um planeta só para nós, temos que conviver saudavelmente, com elevação de espírito com todos os outros povos.

Uma coisa não é boa só porque estou habituado a ela, foi o que me disseram, é agradavel assim, gosto muito, ou serve os meus interesses. Uma coisa é realmente boa, quando serve o interesse de todos.

Quando o trabalho da palavra assenta em pressupostos de verdade, proporciona um maior discernimento a quem receciona a informação e pode alicerçar uma melhor escolha de vida.

Uma existência irrefletida não é só insensata, como também é má. Devemos procurar a justiça e outras virtudes todos os dias, porque é condição humana e a nossa sociedade está sempre a alterar, logo, a tal proximidade com a verdade muda todos os dias. A existência humana tem que ser ativa e não passiva.

A essência da verdadeira cultura é o desenvolvimento da alma humana e as palavras que proferimos só podem ter substância e significado se forem convertidas em ação.

A nobreza de espírito surge para nos elevar à nossa condição de humanos, deixando o lado animal do ser para segundo plano. O ideal em si está esquecido por parte de quem governa, de quem comecializa, mas faz parte da nossa competência coletiva não deixar de comunicar com virtude quando é possível ou necessário. Até porque a felicidade e a paz passam muito por proferir aquilo que pensamos.

Texto baseado na leitura do livro “Nobreza de espírito, um idela esquecido” de Rob Riemen, com prefácio de George Steiner.

 

Novas redes de comunicação , nova sociedade?

Sobretudo nos últimos 30 anos, temos vindo a assistir a inovação, criação e desenvolvimento sem precedentes na nossa sociedade.

Se, durante o século XX a composição da nossa estrutura social se ia alterando a uma velocidade maior que em épocas anteriores. No início do século XX, as novidades e as inovações marcavam as décadas, períodos de 10 anos. No período do pós II guerra mundial, a evolução tecnológica e social, já passou a surgir em períodos mais curtos, de cerca de 2 a 5 anos.

Nesses tempos, havia estabilidade, empregos de longa duração, para a vida. As pessoas iam melhorando tecnicamente a sua performance profissional, iam aperfeiçoando técnicas ou aprofundadando o conhecimento especifico que precisavam para exercer  sua atividade.

Mas nunca precisavam de reformular a sua vida em função da sua atividade profissional ter sido alterada pela consequência do funcionamento da nossa sociedade.

A nossa função profissional pode deixar de fazer sentido, a pessoa é obrigada a atualizar o seu conhecimento, com problemas se não o fizer, o seu trabalho pode deixar de fazer sentido.

No entanto, a partir da década de 80 do século passado, a aceleração da nossa sociedade atingiu outro tipo de velocidade, nesses tempos, já todos os anos existiam inovações, criações e outros desenvolvimentos que acentuaram a evolução da sociedade para registos nunca antes vistos.

A partir da década de 90, com o advento da Internet ao serviço das massas, a velocidade da inovação intensificou-se e a complexidade multiplicou-se pelas áreas comuns de todos. As massas emanciparam-se e agora somos todos emissores globais.

Entrámos em pleno século XXI, já com uma sociedade muito diferente da que tinhamos na década de 80 e do início dos anos 90 do século. As inovações, criações, trocas comerciais e outras interações em rede (empresarial ou social), atingiram níveis que nunca tinham existido.

Hoje em dia, este modelo está perfeitamente consolidado e será muito mais dificil de travar, pois cada vez existem mais cidadãos e empresas com intervenção direta no processo de criação, inovação e desenvolvimento social. A complexidade social tornou-se uma realidade.

Por outro lado, todo este desenvolvimento social, cultural e tecnológico veio sempre acompanhdo de um fator que se foi sobrepondo aos outros e neste momento está isolado na liderança e sem regulação à vista. A economia.

Tudo o que nós fazemos hoje em dia, tem por base o resultado positivo entre o que se investe e gasta na produção em comparação com aquilo que é o resultado do trabalho e da receita, o lucro.

São os mercados financeiros que ditam as leis dos produtos que consumimos, que gerem o valor dos materiais, que sugerem inclusive o investimento em produtos que não existem (fundos especulativos), ou seja, o mercado financeiro, hoje em dia, rege a nossa sociedade.

Todo este avanço tecnológico e social, não foi acompanhado pelo desenvolvimento da politica e da ética, por isso, chegamos a esta fase da nossa era e temos as empresas a necessitar de ser cada vez mais competivivas e adaptáveis à realidade, alterando o seu caminho a cada inovação e criação tecnológica e o único tema que os preocupa é o lucro no final do ano.

Com este tipo de sociedade, as pessoas já não têm emprego para toda a vida, já não têm a mesma casa ou os mesmos contactos durante largos períodos de tempo. Têm que estar sempre a adquirir novos conhecimentos, para não ficarem desatualizados e têm que estar permanentemente a adaptarem-se a novas realidades.

Por um lado, perdeu-se o lado ético e comunitário das relações, a vida hoje implica insegurança e volatilidade. As pessoas não têm as referências nem o conhecimento duradouro, andam um pouco à procura da sua estabilidade.

As empresas tornaram-se multinacionais, ficaram com uma dimensão tal, que o simples funcionário é só mais uma peça na sua engrenagem, que é utilizado a seu bel prazer, para o que mais lhe convier, não lhe interessando os interesses que os movem, ou quais são os seus sentimentos.

Esta procura constante de lucro, permanente criação, inovação ou desenvolvimento social, afastaram as empresas das pessoas, da sua função social e comunitária.

Mas, o tecido empresarial que não inverta esta situação, está a marcar o seu desparecimento, ou seja, hoje em dia, caso as empresas não cumpram o seu papel social, não terão futuro. Porquê?

Porque a sociedade atual está habilitada a dar feedback, cada cidadão, é um comunicador independente e amplitude global, um potencial perigo para as empresas, por muito grandes que sejam. Cada um dos habitantes do planeta terra tem a possibilidade de comentar qualquer assunto, esteja onde estiver e quer tenha conhecimento ou não do mesmo.

Hoje, através da tecnologia, podemos ter uma atitude ativa, mesmo não estando perto ou sabendo do que estamos a falar.

Se a sociedade piorou no sentido social, a parte tecnológica está maravilhosa, visto que, mesmo os cidadãos com poucos recursos ou sem instrução conseguem partipar ativamente em todas as plataformas.

Se o sentido das empresas não for alterado, os funcionários ou outros stakeholders podem muito bem fazer-lhe o enterro em pouco tempo, se não os satisfazerem ou legitimarem a sua posiçã0.

A responsabilidade social das empresas é um dever, sob pena de não sobreviverem. As organizações serão cada vez mais viáveis à medida da sua intervenção junto das bases estruturais da sociedade.

Há um sentido de pertença enorme das pessoas perante as estruturas que as rodeiam. A tendência é de participar cada vez mais, ativa e diretamente no seu meio, nas suas esferas de influência.

As empresas têm que evoluir e deixar de ter o eixo económico como o principal (e para muitas o único) motivo de existirem. Têm que sobreviver utilizando soft power, ocupar uma parte do seu know how e resultados financeiros, a legitimar a sua atividade perante a envolvência. Tratando de parte dos seus problemas, sendo apoio para a sua melhoria ou evolução.

As organizações têm de olhar pela base da sua construção, pelos colaboradores mais simples e dar-lhes oportunidades, conseguindo convênce-los a tratar do futuro da empresa e do seu. Criando parcerias que ajudem a comunidade onde estão sediados.

Têm de regressar  à base da pirâmide e cuidar da estrutura que suporta a sua atividade, evitando as decisões hard power, unilaterais e sobranceiras.

As empresas nesta “nova sociedade” de partilha de informação têm que ser astutas e lidar com muito cuidado com o seu negócio, preferindo sustentar a sua atividade em ações não totalmente económicas, mas, de forma ética, justa e que transmita para os stakeholders, que conhece ou faz o negócio melhor que ninguém.

A prioridade nesta nova sociedade tem que ser a seguinte: ÉTICA > POLÍTICA > ECONOMIA.

Para que esta ordem seja possível, é preciso alguém que a pense, que já foi feito por Philippe de Woot, também já foi divulgado através do seu livro “Rethinking Enterprise”. Agora é preciso que a ideia seja aceite pelo público. A mim, já me tinha dado uma ideia neste sentido, neste contexto, há um acontecimento curioso, antes de ler o texto desta semana.

Na semana passada o tema era “A ideia de Europa” de George Steiner, nesse post, referi que: Este ideal europeu talvez se conseguisse com 3 níveis interligados. Num primeiro nível alguém intelectualmente honesto a pensar o futuro do nosso continente, integrando todas as opiniões dos diversos países. Num segundo nível um conjunto de cidadãos habilitados pelos intelectuais que desenham as linhas com que irão cozer as linhas mestras do futuro europeu. Ajudam a espalhar os ideiais e a consolidar essas alterações nos espaços governamentais. Por fim, sim, no último nível, eram chamados à intervenção os poderes judicial, administrativo e financeiro para assegurar a aplicação das alterações e nada mais.”

Pois bem, eis que Philippe de Woot, com o texto que inspirou este post, revela uma ideia semalhante para a nossa sociedade àquela que apresentei.

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Para já somos dois a querer uma nova forma de sociedade, adaptada à realidade. Muito diferente no comportamento para a estrutura legal que a dirige, pois tem princípios que já não fazem sentido.

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O nosso futuro deveria estar entregue a algo cientifico, à investigação e à razão.

Se um ser humano pensa algo de novo, tem que dialogar para o transmitir. Se não passar a sua mensagem, não vai conseguir que os outros saibam o que fez. A comunicação é fundamental mas em forma de diálogo, sempre em modo soft power, ouvindo, percebendo, ajustando decisões em função do caso.

Há que personalizar o discurso. Não se pode simplesmente só informar e comunicar com os outros, tem que ser um diálogo ético, deve existir sempre semelhança entre pares.

Não se pode entregar o nosso futuro só a politicos, lobbys económicos, charlatões e outros que pululam na nossa sociedade com hard power. Só pensam em alguns e não consideram o bem de todos.

Logo agora que a “aldeia global” é agora uma realidade. O impacto pode ser global.

Que europa teremos?

Comentário à frase do texto em “A Ideia de Europa” de George Steiner  (tradução portuguesa), com prefácio de José Manuel Durão Barroso e introdução de Rob Riemen, diretor fundador do Nexus Institute: “É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que a vida não reflectida não é efectivamente digna de ser vivida“.

Atenas e Jesusalém, durante todos estes séculos influenciaram a nossa cultura, ocupando desde sempre o debate científico, a matemática, o pensamento teológico, filosófico e político. Permitiram a transmissão de conceitos adoptados por todos os europeus, como a música, a economia e o humanismo.

No espaço europeu sempre houve lugar para o debate, com pessoas livres e criativas, que pensavam e tiveram infinitas soluções para os seus problemas. Houve durante séculos uma troca de saberes que foram sendo transportados até à modernidade. Deixaram todo um rol de ensinamentos que fazem de nós aquilo que somos hoje, a soma de todas essas ações.

Na Europa, existe uma infinidade de personalidades que toda a gente conhece o nome, mesmo que não se saiba bem quem foram ou o que fizeram de novo, Shakespeare,  Homero, Descartes, são três exemplos de pessoas que viveram em épocas diferentes mas tornaram-se ícones, ainda hoje falamos neles e sabemos quem são.

A geografia da Europa é acessível numa escala “manual”, nada está definitivamente longe de ser alcançado (proximidade) ou ultrapassado (dificuldade). Parece que não há nenhum local secreto ou recondito que ninguém ainda não tenha visto, visitado ou descoberto em solo Europeu.

Apesar de ser um territtório pequeno em comparação com outras áreas de outros continentes, existe uma divisão muito grande, são mais de 50 países, quase cada um com o seu idioma, o que torna o contexto cultural muito mais complexo por um lado, mas mais rico por outro. No entanto, apesar da proximidade entre os diferentes povos, há patriotismo, regionalismo e sectarismo a mais no discurso do cidadão Europeu comum.

A Europa tem imensos séculos de registo de propriedade intelectual e de ensino dos seus costumes, não podemos ser um povo que desconheça ou abandone o seu passado. É muito importante, faz parte da nossa construção. Somos a soma de todos esses acontecimentos.

Mas também não podemos ficar só agarrados ao passado e não planear o futuro.

Apesar de toda a criação conseguida pelo povo europeu, todo o humanismo explorado e exposto, há um lado no nosso continente que tem sido o “nosso calcanhar de aquiles”. Nos argumentos contra o progresso europeu, temos assistido a uma voracidade enorme em ultrapassar os limites da nossa liberdade, permitindo que existam termos que signifiquem terror, genocídio, racismo, tirania,  chacina ou barbarie e outras ações deste tipo concertadas contra certos povos.

Permitindo estas situações, que provocam desiquilibrios para um lado, desigualdades para outro, será que um povo culturalmente evoluído é capaz de conviver saudavelmente?

É possível recuperar a Europa para a paz duradoura? Sim, claro.

No entanto, como a Europa é um grande puzzle de idiomas e culturas, temos que considerar  uma solução conjunta a melhor opção, através da unidade na diversidade.

O puzzle europeu, só terá sucesso se for unido apesar da sua complexidade.

(…) Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.” (também extraído de “A Ideia de Europa” de George Steiner, p. 36)

Mas esta herança cultural, a base da nossa sociedade clássica e patriarcal está a desaparecer. Estão a surgir outras, com novas formas, mais hermafroditas e de cariz sexual mais diversificado, com caracter mais democrático, simétrico, que poderão proporcionar a recuperação do sonho utópico/ideal europeu, darem-se todos bem, sem violência, crime e desinformação.

Esta nova sociedade que está a surgir proporcionada pela evolução dos meios de comunicação entre todos, até à globalização, pode atenuar certos impetos de alguns países para o confronto bélico, exploração económica ou subversão cultural.

Para chegar a um estado europeu sem atritos nem atropelos dos direitos humanos, terá que existir uma concertação entre os cidadãos fora do circuito politico, económico ou religioso. Não só estas áreas comuns na sociedade europeia têm interesses que sobrepõem ao humanismo, como também, já tiveram mais do que tempo para aplicar algo e nunca o conseguiram verdadeiramente.

É muito importante o cidadão tomar o seu lugar na definição do futuro da europa, apesar de cansado desta luta diária (como refere o início do excerto do texto), quase sem forças para reagir às adversidades que se apresentam, também é fulcral que a vida que nós vivemos valha a pena, que temos que nos esforçar o suficiente para alterar o rumo dos acontecimentos. Para usufruirmos na sua plenitude o ideal europeu. Temos que evoluir para um estado supranacional onde saibamos exatamente determinar até onde podemos ir com a nossa liberdade individual ou coletiva e onde está esse fim, assim como temos de saber e respeitar onde começa a liberdade dos outros (individuais e coletivas).

Não podemos deixar estas deicsões simplesmente para os politicos, economistas ou religiosos, porque já se viu quais foram os resultados até hoje. O poder de decisão tem extravasar os circulos normais, porque até à data outros métodos não deram resultado. Talvez tentando uma abordagem diferente, com o apoio dos grandes intelectuais de cada país, se consiga arranjar uma solução que permitirá almejar o sonho europeu.

Este ideal europeu talvez se conseguisse com 3 níveis interligados. Num primeiro nível alguém intelectualmente honesto a pensar o futuro do nosso continente, integrando todas as opiniões dos diversos países. Num segundo nível um conjunto de cidadãos habilitados pelos intelectuais que desenham as linhas com que irão cozer as linhas mestras do futuro europeu. Ajudam a espalhar os ideiais e a consolidar essas alterações nos espaços governamentais. Por fim, sim, no último nível, eram chamados à intervenção os poderes judicial, administrativo e financeiro para assegurar a aplicação das alterações e nada mais.

Ou seja, a europa, no meu ponto de vista, tem um futuro brilhante, se a ordem atual for invertida e se possa efetivamente legislar em favor do ser humano. Atualmente, na sociedade capitalista, não há espaço de manobra para os cidadãos, os seus desejos estão sempre depois dos interesses politico, económico ou religioso.

Para chegar a uma europa ideal, deverá ter o contributo do profissional de relações públicas, e o seu trabalho constante de comunicar sem posições pre-formatadas e esclarecer sobre a desinformação existente, a propaganda, a publicidade enganosa.

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Só é possível transmitir assertivamente o humanismo através de pessoas, existem menos filtros e direções pre-definidos no individuo que não pertence a um organismo (governamental, financeiro ou ordem religiosa). O cidadão tem que merecer tal desiderato, trabalhar para lá chegar e não ficar à espera que o façam por si.

O cidadão europeu tem que se rodear de outros, de outras pátrias, mas com o mesmo objetivo e trabalhar em conjunto para atingir esse bem estar mútuo.

Desmaterialização do conhecimento

Hoje, todos temos as nossas plataformas individuais de contacto com o mundo exterior, mas nem sempre foi assim, no inicio dos tempos, a sabedoria e o conhecimento estava nos individuos, quando alguém morria, levava consigo muito saber que não podia ser partilhado, o legado cientifico perecia com a pessoa.

Porque não havia método para deixar essa informação de forma permanente como base para as gerações vindouras. Não havia escrita ou outra forma de perpetuar o conhecimento adquirido.

Mais tarde, a Grécia antiga, dos primeiros povos a consolidar o conhecimento adquirido ao longo de uma vida de investigação e prática, ainda hoje são conhecidos: Platão, Sócrates, Aristóteles, Homero, Pitágoras, Euclides de Alexandria, e tantos outros.

Deixaram o seu legado por escrito, ainda hoje, há muitos conceitos que se aplicam em certas teorias, assim como muitos destes homens foram os fundadores no registo de muitas das ciências que estudamos hoje em dia e são a base da compreensão da nossa civilização, as matemáticas, a botânica, a medicina, filosofia, ciências sociais, arte e outras.

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Essa nova oportunidade criada pela acumulação de saber, levou a que o desenvolvimento das sociedades evoluissem mais rapidamente, já tinham uma base sobre a qual poderiam continuar a explorar a sabedoria acumulada. Já não partiam do zero em cada nascimento.

Ainda mais tarde, já no século XV, Guttenberg veio dar um impulso semelhante à concepção de sociedade, quando a mecânica veio dar uma ajuda no desenvolvimento da civilização. A produção de conteúdos até então era manual e limitada ao que o homem conseguia processar. A partir dessa invenção, a imprensa, o mundo começou a processar-se novamente de forma diferente, já não era simplesmente à velocidade do que o homem manualmente conseguia produzir, mas sim a uma velocidade proporcionada pela performance que as máquinas conseguiam atingir, com muito mais rapidez.

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Esta alteração no processo diário da civilização veio contribuir para outra alteração de fundo na vida das pessoas. Já nada foi como dantes, a partir daí veio a aplicação da máquina a outros campos de intervenção humana e entrámos no século XX já com o motor a combustivel consolidado em vários meios de transporte, por exemplo.

A vida das pessoas acelerou bastante ao longo do século XX, a ponto de sairmos de lá já com outro paradigma em questão, a desmaterialização do conhecimento adquirido. A democratização da distribuição da informação. A Internet.

Sim, tal qual o manuscrito na grécia antiga e a máquina da imprensa de Guttenberg vieram dar um novo “prisma” à sociedade, a Internet veio dar um passo ainda maior que os outros dois momentos. A Internet veio dar uma nova dimensão ao conhecimento, veio portabilizá-lo e torná-lo acessível a todos ao mesmo tempo, independentemente do lugar onde se encontrem.

Com a Internet, não é necessária a deslocação presencial para comunicar, assim como não é preciso uma posição fisica estática, mesmo estando a viajar estamos sempre ligados.

A Internet veio criar um novo sistema na sociedade, um novo posicionamento das várias peças que compõem o nosso comportamento social. A percepção de sociedade sofreu uma alteração drástica.

A geração que nasceu após a década de 80 do século passado, é completamente diferente da geração anterior em relação à concepção da “sua” sociedade. O multiculturalismo e a diversidade tomaram a sua posição de destaque na civilização, à medida que as novas tecnologias proporcionaram o acesso democrático a todo o tecido social.

O eixo da sociedade antes da Internet, era algo distinto, altivo, quase inalcansável. O centro do poder estava numa posição que parecia inatingivel. A percepção das pessoas que nos governavam era no sentido de que os subalternos eram ignorantes.

O poder e o conhecimento eram distribuidos num único local, dando destaque a um orador, administrador, gerente, supervisor ou outra posição de destaque ou eloqunte. O tratamento era na sua maioria diferenciado pela posição que ocupavam. Tudo se difundia a partir de um eixo central.

A Internet veio incluir o sistema de partilha, o conhecimento passou a estar acessível a todos e isso por si só, democratizou e consequentemente nivelou a nossa sociedade. Por outro lado, veio dar voz a cada um dos portadores da nova tecnologia de comunicação. Tornou a difusão do conhecimento acessível através de uma simples pesquisa num motor de busca online.

Hoje em dia, há o sentimento de que quem governa, chefia ou lidera está sempre a ser avaliado, escrutinado e constantemente posto em causa, tendo agora o rótulo de incompetente. Porque o saber passou para cada um dos portadores das plataformas e qualquer um contribui para a evolução social, o centro de difusão deixou de existir e a mensagem passou a ter multiplas origens.

O conhecimento democratizou-se e desmaterializou-se, mas o registo vai sendo acumulado em diversas plataformas e a sabedoria fica acessível a todos, sempre.

Para as Relações Públicas (RP), este novo paradigma comunicacional veio, em traços gerais, melhorar o panorama profissional.

O sistema de difusão está muito mais fácil, os meios disponíveis são cada vez melhores, mais complexos e eficazes, tudo o que diz respeito à trasmissão está a níveis nunca antes possíveis de realizar. Há plataformas capazes de consumar todas as nossas intenções de comunicar.

Ser Relações Públicas é mais viável que outra profissão relacionada (jornalismo, marketing, multimédia), a democratização da sociedade veio dar ênfase a uma posição multifacetada de um RP, em vez de uma menos polivalente, mais especializada.

O discurso que a sociedade exige de profissionais de RP é de transparência, realismo, responsabilidade social, partilha e defesa dos valores base da civilização.

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O público age em função dos seus interesses, cada um com a sua plataforma tecnológica, intervem quando, onde e no sentido que quiser.

O isolamento por um lado, cada um por si, poderá dar indicação de algum egoísmo, por outro lado, o poder de dar feedback, mesmo não conhecendo as pessoas envolvidas ou sabendo do que realmente se passou para poder opinar, é uma ferramenta que qualquer público desta nova geração não abdica.

É preciso ser muito transparente para conseguir ser aceite pelo público do início deste milénio. Um RP tem que ter ideias e decisões coerentes ao longo do tempo. Tem que ter humildade e aceitar as criticas que vai receber, pois toda a gente tem opinião e ferramentas que dão feedback. Deve aproveitar ao máximo o contributo livre e espontâneo para melhorar o comportamento profissional.

Se o RP souber cativar o público, mais depressa sobe na sua consideração, pela velocidade da partilha nas plataformas, se não agradar ao cidadão, pode muito bem ser prejudicado num ápice.

Os novos públicos têm o conhecimento e não é um RP descuidado com as regras atuais e em constante mudança que vai singrar.

Porque a geração que ainda detém o poder não é esta. Quem ainda está a tomar decisões e a manter o status quo social desadequado da realidade que temos, não compreende as necessidades de mudança tão bem como a geração milenium e posteriores.

O RP para ter sucesso, tem que se adaptar continuamente a estas alterações sociais provocadas pelas invenções tecnológicas. Tem que compreender e comunicar com esta nova geração de uma forma diferente que as anteriores. Tem que personalizar o seu discurso.

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É preciso ter muita atenção à força que transmitem, desde 2015 que são a geração que representa a maior percentagem de força de trabalho.

A definição de algumas qualidades em comparação com a geração anterior:

  • São mais narcisistas, empreendedores, independentes e diversificados;
  • São mais abertos e adaptam-se melhor à mudança;
  • São mais criativos;
  • Consomem de forma diferente, têm interesses e hábitos diferenciados;
  • Interessam-se de forma diferente pelos media;
  • Têm expetativas elevadas;
  • Mentalidade com forte sentido de direito e controlo.

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No entanto, por serem mais indivudualistas, têm um menor sentido de trabalho em equipa e consequentemente uma lealdade menor. Isto faz sentido, porque à velocidade que as situações de vida aceleraram, foram de tal maneira, que é mais dificl planear ou manter as coisas para toda a vida (emprego, casamento, casa, circulo de amigos para toda a vida, etc…).

Artigo inspirado na publicação de Michel Serres, a “Thumbelina” (pequena polegar).

Comunicação personalizada, sim ou não?

up_down_questionSou funcionário de um organismo público, estou “à vontade” quando preciso de realizar um serviço online ou presencial.

Frequento poucas vezes os espaços onde os serviços públicos são realizados presencialmente, mas quando tenho que ir, nunca saí de lá sem antes ter ajudado alguém a encontrar o seu percurso para conseguir resolver o seu problema.

Não é a minha intenção procurar pessoas para ajudar a desbloquear o enigma do atendimento, não estou lá mais de meia hora de cada vez, mas, vem sempre alguma pessoa ter comigo, com dificuldade em perceber onde se deve dirigir para solucionar a sua questão pendente.

Nem sei se será sempre assim, se terei escolhido as mesmas horas das pessoas que costumam ter mais dúvidas. Bem, nem sei se será sempre assim, não é bem o caso, vejo todos os dias uma fila interminável de pessoas à espera que a loja abra. Meia hora depois de abrir há entidades que já não disponibilizam senhas, está esgotado o plafond de atendimento para o dia.

Todos os dias há serviços que esgotam a capacidade do atendimento sem “fazer” nada para alterar a situação. O cidadão, ou o empresário são todos os dias penalizados, porque não existe ninguém que pense nos clientes. A realização do serviço pretendido no menor tempo possível. Qualidade no atendimento que satisfaça o visitante.

Hoje, o sistema evoluiu para o seguinte processo:

  1. Horário fixo ou flexivel diurno;
  2. Senhas de atendimento e chamada sequencial + senhas prioritárias;
  3. Formação uniforme a todos os colaboradores;
  4. Respostas prepradas por superiores hierarquicos sem valição dos técnicos que realizam o processo;
  5. Despachar o cliente o mais depressa possível sem explicar ou enquandrar a sua situação.

No entanto,  apesar destes factos, podemos assumir que nas ultimas duas decadas temos desenvolvido bem este processo de atendimento, os fluxos são mais simples, mais claros, mas desmaterializados e a distância fisica é cada vez menos um problema.

Todos estes processos de vida que nós temos obrigatoriamente que fazer enquanto cidadãos (Cartão de Cidadão, Carta de Condução) e pessoas coletivas (Constituição de Empresas) sofreram upgrades bestiais.

Mas, seja qual for a evolução tecnologica, a base da sociedade é a interação humana. Existirá sempre a necessidade de contacto direto. O valor na comunicação interpessoal é diferente do mediado.

No fututo teremos cada vez menos atendimento personalizado, cada vez mais “agendado”, “programado”, “otimizado”, “desmaterializado” e fisicamente insignificante.

Será o melhor caminho? Não devemos descurar as melhorias da tecnologia, mas só isso será a melhor opção? O conhecimento está mais homogeneizado, mas haverá sempre pessoas que não encaixam nesta uniformização da comunicação.

A comunicação é diversidade e querer balizar tudo o que é transmitido não é bom do ponto de vista do objetivo final do contacto, conseguir transmitir algo que seja perceptivel e que consiga ser interiorizardo e memorizado pelo recetor.

Há vários tipos de pessoas que são total ou parcialmente infoexcluidas, outras ainda, não têm confiança nos canais indiretos, algumas gostam de obter algum comprovativo palpavel, ainda há as que não têm meios para realizar os serviços online, etc…

Haverá sempre alguém a precisar de apoio. Este tipo de trabalho não faz parte do seu habitat diário, e uma tarefa simples, como a de renovar o Cartão de Cidadão, torna-se, para o comum dos cidadãos, um quebra cabeças, uma charada ou algo digno de profissionais no xadrez.

Cada vez mais se processa a resposta única, a “tal cassete” que faz parte do manual de respostas formatadas. Dá menos trabalho, é mais prático, mais rápido, mais um atendimento para as estatísticas, mais um caso resolvido, etc….é só vantagens.

Será?

Todos os cidadãos têm o mesmo conhecimento?

Sabem todos fazer tudo da maneira como estão transmitidas e publicadas as informações?

Será que a resposta única é perceptivel por todos por igual?

Será que todos percebem se a comunicação for enunciada de uma única formula?

Tem o impacto esperado, terá hipotese de funcionar melhor de outra forma?

Até que ponto é tomada em consideração a opinião do cidadão?

E qual é o seu feedback? Há estatísticas para além da análise à quantidade respostas e do tempo “gasto” no atendimento? Pela argumentação dada no início do texto (filas intermináveis todos os dias), talvez seja ainda pouco o trabalho de investigação nesta área.

A comunicação é um fator fundamental para resolver situações de interação humana, não são só as senhas e o posto de atendimento identififcado que resolvem todas as situações, provavelmente os cidadãos têm que aprender um a um, os serviços que pretendem realizar. Não há ninguém que os receba à entrada da loja e peronalize o atendimento, ajudando o visitante a realizar a melhor performance possível para as suas necessidades.

Se a tecnologia evoluiu, a estrutura que a serve, os colaboradores, devem adaptar-se a esta nova situação, e se agora é possível poupar uma série de tempo nas tarefas burocráticas devido à rapidez de registo eletrónico, porque não usar esse tempo que sobra, para  prevenir os cidadãos que frequentam o espaço público?

Como? Ensinando os processos, explicando porque é assim, dando contactos diretos. Se as pessoas forem ensinadas, provavelmente irão tornar-se autónomas e conseguirão apoiar outros. As pessoas passarão menos tempo no local, será benefico para ambos, cidadão e organismo.

Mais à fente vou deixar aqui uma proposta que possa melhorar esta situação. Até lá irei abordar algumas temáticas na área da comunicação. Será um processo que tem a intenção de facilitar o entendimento para esta temática, para que seja mais fácil perceber onde eu quero chegar quando me refiro a atendimento personalizado – comunicação interpessoal.

 

 

O check-up ao site da saúde

Bip Bip e Online PR Buddy

Um novo post do PR buddy? Até já, vou ler…

Os serviços online estão cada vez mais intuitivos, cada vez é menos necessário perceber como funcionam os sites, está tudo a ser melhorado continuamente para que a nossa experiência de navegação seja cada vez mais intuitiva.

Pudera, se assim não for, com o nível de concorrência atual, quem se deixa ficar parado no tempo, porque até conseguiu algo de muito bom para aquele momento, pode ser que 1 mês ou 2 depois tenha necessidade de inovar, visto que a tecnologia não pára de nos surpreender.

Os melhores sites estão na área de design e comunicação – pela formação – e empresarial  – pela necessidade de investimento devido à competição.

Desta vez, vamos analisar um site que já foi aqui referido nos serviços e consegue ser considerado um dos melhores para os serviços online, no entanto, como iremos demonstrar, ainda tem espaço de manobra para melhorar.

Estou-me a referir ao Portal da Saúde – site do tipo institucional – que começa logo por pecar no url: “servicos.min-saude”, não é muito intuitivo mas os algoritmos do google ajudam-nos a encontrá-lo rápidamente. No entanto, entra-se diretamente na homepage e é fácil lá voltar, é claro em relação ao seu propósito, está bem arrumado ao nível informativo, tem uma navegação fácil e promove no utilizador a curiosidade de saber mais sobre este assunto. Outra das vantagens são os links internos para cada temática, até porque temos que compreender que o site da saúde “é um mundo” ao nível da informação disponível.

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Ao nível do design é agradável e moderno, é humano, fator essencial do meu ponto de vista, o Portal da Saúde pressupõe o relacionamento com pessoas.blog_6_maioTambém existe um equilibrio/coerência de cores, cada área temática tem o seu conjunto de cores.

Em relação ao conteúdo, é bastante fidedigno, quem publica é nada mais nada menos que a entidade reguladora de âmbito nacional. Os assuntos são complexos, mas a informação procura ser objectiva e factual, encaminhando o utilizador para outras fontes.

Os seus pontos de atração? Material informativo especializado que suporta e dissipa as dúvidas quando temos necessidade de encontrar um Hospital, Centro de Saúde ou informação sobre doenças e os seus efeitos secundários. Disponibiliza contactos (telefones, moradas, horários).

Após registo disponibiliza uma série de serviços úteis ao cidadão, como por exemplo: monitorizar a saúde, marcação de consultas, renovar a medicação, pedir a isenção de taxas moderadoras, etc.

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Outro dos aspetos positivos é a sua compatibilidade com diversos browsers e plataformas, os timmings de acesso são relativamente rápidos (tendo em consideração o volume de informação que contem).

Temos ainda uma área de notícias da especialidade, dando sobretudo conta da atualização de procedimentos e legislação na área, temos a possibilidade de saber quem fez o site, quem o gere, os termos e condições de navegação e utilização, o mapa do site, um tutorial de como navegar, um dicionário de termos de saúde, tópicos de ajuda (Faq’s), a legislação em vigor, sites relacionados e links úteis por temática (Cancro, grávida, SIDA, Droga).

Infelismente, até ao momento não existe um motor de pesquisa para encontrar expressões no site, existe sim um motor de pesquisa que encontra “tags”, as redes sociais indicadas no separador inferior não funcionam, têm links, mas não levam o utilizador para onde indicam – imagens do Facebook, Twitter, LinkedIn e Goolge +.

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Sabemos perfeitamente que neste mundo nem tudo é perfeito, mas estava à espera de melhor, até porque neste caso específico, tenho a noção de quanto dinheiro já foi gasto com esta plataforma e ainda não está completa.

Bem esperemos que alguém com responsabilidade leia e retifique em conformidade.

Francisco Paulo

RP facilita a vida

Ser um RP hoje em dia, facilita a nossa vida.

O nosso mundo está crivado de meios que possibilitam a comunicação sem necessidade de presença física ou espaço temporal. Temos acesso a informação sem a necessidade de nos deslocarmos, estamos cada vez mais autónomos ou isolados por um lado, estamos também com o poder de comunicar sem intermediários, estamos juntos na rede.

Esta ação direta entre emissor e receptor permite que a profissão de relações públicas seja mais significativa para quem produz bons conteúdos. Têm aceitação e tornam-se parte integrante da cultura social.

As redes sociais, onde este blogue está inserido, tem hoje em dia a possibilidade de ser uma ferramenta que irá melhorar a qualidade de vida dos leitores, diretamente de um individuo para todo mundo.

Esta é uma forma direta de poder melhorar cada vez mais a nossa existência pelo conhecimento partilhado.

A nossa sociedade exige cada vez mais de nós hoje me dia, vivemos num mundo acelerado, temos menos tempo para as tarefas do dia a dia.

Mas temos ferramentas que podem ajudar a melhorar o desempenho, mesmo sem a necessidade de contacto presencial, este blogue nasce de um misto de necessidade académica e vontade pessoal, vai tentar por um lado colocar ao dispor de todos através da Internet, artigos de opinião sobre a minha vocação, informação sobre a minha área, onde estou a especializar-me, procurando dar uma visão global da atualidade nas Relações Públicas.

No entanto, disponibilizo o meu know-how na realização de serviços que se podem realizar online, links para obter outros serviços, processos que ajudem a melhorar a performance na realização de atos administrativos, típicos de qualquer cidadão, desde como obter o Cartão de Cidadão, alterar a morada no Cartão de Cidadão sem sair de casa, autenticação com Cartão de Cidadão, instalação e configuração de certificados digitais, realização de serviços comerciais (constituição de empresas, comunicação prévia de serviços, licenciamento, etc…).

Também terei informações de como ultrapassar certos constrangimentos que surgem com a tecnologia (erros, falta de software).

Está aberto à participação, partilha e contribuição de todos, se cada um ajudar a compilar o seu conhecimento especializado nas nas áreas identificadas (relações públicas e serviços online), teremos um dia a dia muito melhor.

Francisco Paulo